Rio de Janeiro, 31 de agosto de 2026.
Projeto Bíblia - Estudo do Livro de Atos dos
Apóstolos
Tema da Mensagem – Quando Deus restaura o que
foi perdido – Parte 2
Texto Base – Atos 1:21-26
INTRODUÇÃO:
Os versos
anteriores Dr. Lucas relatam uma ordem e uma grande promessa que a igreja
recebeu de Jesus: “Mas recebereis poder,
ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas...” (At 1:8).
Jesus, porém, não disse aos discípulos para saírem imediatamente pregando.
Disse que deveriam esperar. Eles tinham uma missão, mas ainda não tinham
recebido o poder necessário para cumpri-la. E aqui encontramos uma verdade
importante: Entre a promessa de Deus e o cumprimento da promessa existe, muitas
vezes, uma sala de oração. Os discípulos retornam para Jerusalém e encontram-se
reunidos. O que fazem enquanto esperam? Eles permanecem juntos e oram.
1º APONTAMENTO – O MINISTÉRIO CRISTÃO
EXIGE QUALIFCAÇÃO E TESTEMUNHO. (V.21-23)
Pedro estabelece
critérios para o substituto. "É
necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o
Senhor Jesus andou entre nós..." O candidato deveria ter acompanhado
Jesus: desde o batismo de João; durante Seu ministério; até Sua ascensão. E
havia uma qualificação central: "Para
que um destes se torne conosco testemunha da sua ressurreição." Aqui
está o coração do apostolado.
O apóstolo era uma
testemunha. Não era simplesmente um administrador. Não era apenas um líder
religioso. Não era alguém escolhido por carisma. Era uma testemunha autorizada
de Cristo.
Devemos ter bastante
atenção na importância dessa continuidade histórica: o testemunho apostólico
estava fundamentado na experiência direta com Jesus e especialmente na
realidade da ressurreição. As qualificações também mostram por que o apostolado
original tinha caráter único e não simplesmente uma sucessão ilimitada de
pessoas. Paulo, por exemplo, não teria preenchido essas qualificações
específicas para substituir Judas.
A ressurreição era o
centro da mensagem. Pedro não diz: "Precisamos de alguém que saiba
administrar." Ele não diz: "Precisamos de alguém popular." Ele
não diz: "Precisamos de alguém eloquente." A prioridade era: Uma
testemunha da ressurreição. Porque sem ressurreição não existe Evangelho. A
Igreja não foi construída sobre uma filosofia. Foi construída sobre um
acontecimento. Jesus morreu. Jesus ressuscitou. Jesus vive. A realidade
histórica da morte e ressurreição de Cristo é essencial para a validade da
mensagem cristã.
A Igreja ainda
precisa de testemunhas. Talvez não no sentido apostólico original, mas no
sentido missionário. Precisamos de pessoas que possam dizer: "Eu conheço o
Cristo ressuscitado." Nossa maior credencial não é: nosso cargo; nosso
diploma; nossa popularidade; nossos dons e talentos. Nossa maior credencial é
uma vida que testemunha Jesus.
2º APONTAMENTO – ANTES DE TOMAR
DECISÕES, A IGREJA DEVE ORAR. (V.24)
"E, orando, disseram..." Que detalhe importante! Eles reconheceram
a necessidade; examinaram as Escrituras; estabeleceram critérios; apresentaram
candidatos; oraram. Essa é uma igreja madura. Eles não disseram: "Vamos
votar em quem é mais popular." Não fizeram campanha. Não promoveram
competição. Eles oraram.
Observe a oração: "Tu, Senhor, que conheces o coração de
todos..." Eles reconheciam uma limitação. Nós vemos a aparência. Deus
vê o coração. Nós vemos: currículo; carisma; desempenho; resultados. Deus vê o
coração. Essa oração revela humildade. Eles praticamente disseram: "Senhor,
fizemos tudo o que podíamos, mas existe algo que somente Tu podes fazer:
conhecer completamente o coração humano."
Liderança espiritual
precisa de dependência espiritual. Uma igreja pode ter reuniões, estatutos,
planejamento, métodos, estratégias, etc. Tudo isso pode ser importante. Mas
nada substitui a oração. A oração não é somente pedir ajuda a Deus. É uma
expressão de dependência e uma maneira de alinhar o coração humano à vontade
divina.
Antes de decidir,
devemos perguntar: O que a Palavra diz? Quais são os critérios bíblicos? Já
oramos? Estamos buscando a vontade de Deus ou apenas pedindo que Ele abençoe
nossa decisão? Existe uma grande diferença entre: "Senhor, abençoa o que
decidimos" e "Senhor, mostra-nos o que Tu já decidiste."
3º APONTAMENTO – A ESCOLHA É DE DEUS,
NÃO UMA CONQUISTA HUMANA. (V.24-26)
"Mostra-nos qual destes dois
tens escolhido." Observe que eles não perguntaram: "Quem
devemos escolher?" Eles perguntam: "Quem Tu escolheste?" Que
visão maravilhosa de ministério! Matias não conquistou o apostolado. Ele foi
escolhido. O ministério não é, primeiramente, uma plataforma para realização
pessoal. É um chamado de Deus.
Ninguém deve entrar no
ministério pensando: "Eu quero aparecer." "Eu quero
reconhecimento." "Eu quero posição." O verdadeiro servo entende:
"Eu fui chamado para servir."
O lançamento de sortes
é uma prática que causa estranheza a nós leitores modernos. Mas no Antigo
Testamento, lançar sortes era uma forma reconhecida de buscar discernimento em
determinadas circunstâncias.
O texto sagrado vai
dizer: "A sorte se lança no regaço,
mas do Senhor procede toda decisão" (Provérbios 16.33). Entretanto,
precisamos observar que este episódio ocorre antes de Pentecostes. Depois de
Atos 2, não encontramos a Igreja tomando decisões por meio de sortes. O padrão
passa a envolver: oração, Palavra, direção do Espírito Santo, sabedoria e
discernimento comunitário. Portanto, o texto não estabelece necessariamente um
método universal de escolha para a Igreja contemporânea. O princípio permanente
não é: "Devemos lançar sortes." O princípio permanente é: "Devemos
submeter nossas decisões à vontade soberana de Deus."
4º APONTAMENTO - UMA QUESTÃO
IMPORTANTE: MATIAS OU PAULO?
Alguns defendem que
Pedro agiu precipitadamente e que Paulo deveria ter sido o décimo segundo
apóstolo. Mas essa interpretação apresenta dificuldades. Paulo não preencheria
as qualificações estabelecidas em Atos 1:21-22 para ocupar especificamente o lugar
de Judas, pois não acompanhou Jesus desde o início de Seu ministério terreno.
Paulo foi, sim, um
apóstolo. Mas seu apostolado tinha uma natureza e chamado específicos. Matias
foi escolhido para restaurar o grupo dos Doze. Paulo foi chamado posteriormente
como apóstolo dos gentios. Deus tinha espaço e propósito para ambos.
“O lançamento de sortes foi o método que se empregou para deixar a
escolha nas mãos do Senhor (Pv 16:33). A seita de Cunră também seguia esta
praxe (1QS 5:3), mas duvida-se que a igreja a copiou de Cunra De modo
semelhante, é desnecessário considerar o número dos doze apóstolos como
continuação da ideia dos doze leigos que (juntamente com três sacerdotes),
compunham o concilio da seita de Cunra (1QS 8:1; não fica claro se a totalidade
dos membros somava quinze ou doze). Alguns comentaristas argumentam que o apelo
às sortes tipifica a situação da igreja antes do Pentecoste, quando ainda não
tinha a orientação do Espírito, e outros foram além e alegaram que a igreja
agiu erroneamente na escolha de Matias: deveria ter esperado o
"décimo-segundo homem" da escolha do próprio Deus, a saber: Paulo, ao
invés de submeter a Deus a escolha entre dois outros sobre os quais nada mais
se ouve. Quanto a isto, porém, nada mais ficamos sabendo acerca de qualquer dos
outros membros dos Doze (a não ser Pedro, Tiago e João) em Atos, e Paulo não
possuía as qualificações essenciais para ser um dos Doze. O máximo que se pode
dizer é que, durante o período antes do Pentecoste, a igreja precisava procurar
algum outro meio de orientação divina que não fosse a ajuda do Espírito, mas o
método que adotou (a oração e o lançamento de sortes) foi inteiramente
apropriado. Na realidade, a igreja estava pedindo ao Senhor que fizesse a Sua
escolha do homem certo, e a este foi "contado" (ARC) como apóstolo;
não se pode dizer que a igreja o "elegeu".[1]
CONCLUSÃO:
O Senhor restaura a
integridade de sua igreja para cumprir sua missão. Observe que antes de
Pentecostes, Deus restaura os Doze; antes do derramamento do Espírito, existe
uma preparação; e antes da expansão missionária, existe organização, oração,
submissão às Escrituras e reconhecimento da liderança divina.
A Igreja estava se
preparando para receber poder. Mas antes do poder, havia ordem. Antes do
movimento, havia oração. Antes da multidão, havia comunhão. Antes de Atos 2,
havia Atos 1.
O texto nos apresenta
uma comunidade ferida, mas não derrotada. Havia uma cadeira vazia, uma história
dolorosa, uma traição recente, incertezas sobre o futuro. Mas Deus estava
trabalhando. A história de Judas não terminou a missão. Ausência de Judas não
trouxe descrédito ao colegiado apostólico. Nada pode parar a igreja do Senhor
Jesus!
Sabe o verdadeiro
motivo pelo qual a igreja não pode ser parada. Porque a obra é Deus e não de homens.
E quando a obra é de Deus falhas humanas não anulam o propósito, crises não
cancelam a sua missão, perdas não significam o fim, cadeiras vazias podem ser
preenchidas, pessoas podem ser restauradas, novos líderes podem ser levantados,
a missão continua.
Pessoas podem abandonar
o seu lugar, líderes podem falhar e circunstâncias podem mudar, mas ninguém
consegue deixar uma cadeira vazia no propósito eterno de Deus. Quando alguém
sai da nossa história, não significa que Deus saiu do controle da história.
[1] MARSHALL, Howard I. Atos: introdução e comentário. Editora Vida
Nova; São Paulo – SP, 2020, pg. 67.

