domingo, 4 de outubro de 2026

A busca por significado - Eclesiastes 1:1-11

 


Rio de Janeiro, 04 de outubro de 2026.

Série de Mensagens – Auditoria da Alma

Tema da Mensagem – A busca por significado

Texto Base – Eclesiastes 1:1-11

Vivemos em um tempo em que somos constantemente incentivados a avançar. Precisamos produzir mais, conquistar mais, ganhar mais, experimentar mais, conhecer mais, viajar mais, ter mais. A sociedade nos ensina que precisamos estar sempre em movimento. Parar parece desperdício de tempo. Descansar parece improdutivo. Refletir parece coisa para outro momento. E, muitas vezes, seguimos correndo sem sequer perguntar para onde estamos indo.

É nesse contexto que a mensagem de Eclesiastes se torna extremamente atual. O livro começa de uma maneira surpreendente. O Pregador não começa oferecendo respostas, mas fazendo uma afirmação desconcertante: “Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” (Ec. 1.2). Talvez essa não seja a frase que esperaríamos encontrar em um livro da Bíblia. Esperaríamos uma palavra de ânimo, uma promessa de prosperidade, uma fórmula para uma vida feliz. Entretanto, Eclesiastes começa nos convidando a parar e olhar para a própria existência.

É como se o Pregador estivesse dizendo: antes de continuar vivendo, faça uma revisão da sua vida. Antes de continuar correndo, pergunte para onde você está indo. Antes de conquistar alguma coisa, pergunte se aquilo que você está tentando conquistar realmente possui capacidade de satisfazer a sua alma.

Essa é a proposta desta série que chamamos de “Auditoria da Alma”. Uma auditoria é uma investigação, uma avaliação cuidadosa, uma revisão. Quando uma empresa faz uma auditoria, ela procura descobrir como estão suas contas, seus processos, seus investimentos e seus resultados. Mas nós raramente fazemos uma auditoria semelhante em nossa vida interior. Sabemos quanto temos na conta bancária, sabemos quanto trabalhamos, sabemos quais são nossos compromissos, mas talvez não saibamos responder como está a nossa alma.

Por isso, durante esta série, queremos fazer algumas perguntas difíceis. O que estamos buscando? O que realmente nos satisfaz? Como devemos viver sabendo que a vida é breve? E, finalmente, o que permanece quando tudo termina?

Eclesiastes começa justamente com a constatação de que a existência humana é marcada pela transitoriedade. A palavra hebraica traduzida por “vaidade” é hebel, que literalmente pode trazer a ideia de vapor, sopro, neblina. Não precisamos entender essa palavra simplesmente como “inutilidade” ou “falta de valor”. O sentido é mais profundo. A vida é como um vapor: está diante dos nossos olhos, podemos percebê-la, podemos desfrutá-la, mas não conseguimos segurá-la. Ela é real, mas passageira. É bela, mas frágil. É preciosa, mas não está sob nosso controle.

O Pregador olha para as gerações e afirmar: “Geração vai, e geração vem”. Essa é uma das primeiras verdades que precisamos encarar quando fazemos uma auditoria da alma: nós somos temporários.

Nós chegamos a este mundo, fazemos nossos planos, construímos nossas histórias, trabalhamos, formamos famílias, conquistamos algumas coisas, perdemos outras, deixamos algumas marcas e, em determinado momento, partimos. Depois de nós virá outra geração. E depois outra. O mundo continuará. O sol continuará nascendo. Os rios continuarão correndo. As pessoas continuarão trabalhando, construindo, sonhando e fazendo planos.

Isso pode ser desconfortável para o nosso ego, mas pode ser libertador para nossa alma. Porque talvez carreguemos um peso que nunca deveríamos carregar: a sensação de que tudo depende de nós. Precisamos lembrar que somos importantes, mas não somos indispensáveis. Temos responsabilidades, mas não temos controle absoluto. Deus nos chamou para viver fielmente, não para sustentar o universo sobre os nossos ombros.

O Pregador então começa a observar a natureza. Ele fala sobre o sol que nasce e se põe, sobre os ventos que vão e voltam, sobre os rios que correm para o mar, mas o mar nunca se enche. Há movimento, mas também há repetição. Há atividade, mas não necessariamente novidade. E, ao olhar para isso, somos levados a uma pergunta muito importante: será que estamos realmente vivendo ou apenas repetindo ciclos?

Nós acordamos, trabalhamos, resolvemos problemas, pagamos contas, cuidamos da família, voltamos para casa, dormimos e começamos tudo novamente. Alguns dias são diferentes, mas muitas vezes a estrutura permanece. E podemos nos tornar tão ocupados que deixamos de perguntar se aquilo que estamos fazendo possui algum significado.

Uma das grandes ilusões da vida é imaginar que uma agenda cheia significa necessariamente uma vida significativa. Não significa. Podemos estar extremamente ocupados e profundamente vazios. Podemos ter muitos compromissos e pouca direção. Podemos estar cercados de pessoas e continuar experimentando solidão. Podemos possuir informação e continuar sem sabedoria. Podemos conquistar muitas coisas e continuar perguntando, dentro de nós mesmos: “É só isso?”

Eclesiastes coloca o dedo exatamente nesse ponto. O Pregador afirma que “os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir” (Ec. 1.8). Existe algo dentro do ser humano que parece estar sempre dizendo: “Mais um pouco”. Quando eu conseguir aquele emprego, então estarei realizado. Quando comprar aquela casa, estarei satisfeito. Quando ganhar mais dinheiro, estarei tranquilo. Quando meus filhos crescerem, quando minha carreira avançar, quando meu ministério alcançar determinado resultado, quando eu alcançar determinado reconhecimento, então finalmente poderei descansar.

Mas chegamos lá e descobrimos que ainda não é suficiente. Essa é uma das grandes contradições da existência humana: muitas vezes pensamos que estamos buscando coisas, quando, na verdade, estamos buscando aquilo que imaginamos que essas coisas poderão nos proporcionar. Não queremos simplesmente dinheiro; queremos segurança. Não queremos simplesmente reconhecimento; queremos valor. Não queremos simplesmente prazer; queremos felicidade. Não queremos simplesmente sucesso; queremos significado.

E o problema começa quando esperamos que coisas passageiras nos ofereçam aquilo que somente Deus pode proporcionar. Não há nada necessariamente errado em trabalhar, prosperar, construir uma carreira, adquirir bens, desfrutar das coisas boas da vida ou realizar projetos. O próprio Eclesiastes reconhecerá posteriormente que existe beleza em desfrutar os dons que Deus concede. O problema acontece quando transformamos essas coisas em absolutos. Quando esperamos delas uma satisfação que elas nunca foram capazes de oferecer.

Por isso, a pergunta desta primeira mensagem é tão importante: o que estamos buscando? Talvez essa seja uma pergunta que deveríamos levar para casa e colocar diante de Deus. O que eu realmente estou buscando? O que ocupa minha mente quando acordo? O que domina minha ansiedade? O que imagino que preciso conquistar para finalmente estar em paz? Onde está depositada a minha esperança?

O Pregador também afirma que “o que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol” (Ec. 1.9). Nós vivemos fascinados pelo novo. Novo emprego, novo carro, nova casa, nova experiência, nova viagem, novo relacionamento, nova tecnologia. E não existe nada errado em desfrutar das novidades da vida. O problema surge quando acreditamos que a próxima novidade será capaz de resolver a nossa existência.

A história humana muda, a tecnologia muda, os costumes mudam, mas algumas das perguntas fundamentais continuam exatamente as mesmas. Quem sou? Por que estou aqui? O que é felicidade? Por que sofremos? O que acontece quando morremos? Existe um sentido para tudo isso?

Mudam as ferramentas, mas o coração humano continua fazendo as mesmas perguntas. Por isso, Eclesiastes é tão atual. Ele nos lembra que o problema mais profundo da humanidade não é tecnológico, econômico ou cultural. É existencial e espiritual. O ser humano continua tentando encontrar debaixo do sol aquilo que só pode ser encontrado quando levanta os olhos para além do sol.

E então chegamos ao versículo 11: “Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas”. Essa é uma afirmação desconfortável. Nós gostamos de imaginar que seremos lembrados. Gostamos de deixar nosso nome, nossa marca, nossa história. Mas Eclesiastes nos lembra que até a nossa memória é limitada. Pessoas que foram extremamente importantes em seu tempo hoje são desconhecidas pela maioria. Homens e mulheres que construíram grandes obras foram esquecidos pelas gerações seguintes.

Isso não significa que nossa vida não tenha valor. Significa que o sentido da nossa existência não pode estar fundamentado naquilo que deixaremos na memória das pessoas. E talvez essa seja uma das maiores perguntas que Eclesiastes coloca diante de nós: se ninguém se lembrar do meu nome daqui a cem anos, minha vida terá valido a pena? Se a resposta for não, talvez tenhamos colocado o sentido da nossa vida no lugar errado.

Porque o sentido da vida não pode depender simplesmente de quanto conquistamos, quanto acumulamos, quanto produzimos ou quanto somos lembrados. Eclesiastes nos conduz a perceber que tudo aquilo que está “debaixo do sol” é limitado. E quando tentamos transformar algo limitado em um absoluto, inevitavelmente ficaremos frustrados.

Por isso, a mensagem de Eclesiastes não é simplesmente que “nada faz sentido”. Essa seria uma leitura superficial do livro. A mensagem é mais profunda: nada debaixo do sol consegue, sozinho, oferecer o sentido último da existência. O diagnóstico vem primeiro. A resposta virá depois.

O capítulo 1 nos coloca diante do vazio. O capítulo 2 aprofundará nossa busca por satisfação. O capítulo 3 nos lembrará dos limites e das estações da vida. E, ao final, o Pregador nos conduzirá para Deus: “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem”. (Ec. 12.13)

Perceba a trajetória. O livro não termina dizendo: “Desista da vida”. Ele termina dizendo: viva diante de Deus. Talvez hoje Deus esteja nos convidando a fazer uma auditoria da alma. Não apenas perguntar se nossa vida está funcionando, mas perguntar se ela está fazendo sentido. Não apenas perguntar se estamos ocupados, mas perguntar se estamos vivendo de acordo com aquilo para o qual Deus nos criou.

Talvez seja necessário olhar para nossa agenda e perguntar: onde está Deus? Olhar para nossos sonhos e perguntar: onde está Deus? Olhar para nossas prioridades e perguntar: onde está Deus? Olhar para aquilo que estamos buscando e perguntar: será que isso realmente pode satisfazer minha alma?

Porque existe uma tragédia que precisamos evitar: passar a vida inteira tentando construir a vida que imaginamos que nos fará felizes e chegar ao final descobrindo que construímos a vida errada.

Talvez a grande tragédia da vida não seja chegar ao fim e descobrir que não conseguimos tudo aquilo que queríamos. Talvez seja chegar ao fim e descobrir que conseguimos quase tudo aquilo que queríamos, mas buscamos nas coisas erradas aquilo que somente Deus poderia nos dar.

Por isso, a primeira pergunta desta Auditoria da Alma não é “quanto você conquistou? ”, nem “quanto você possui? ”, nem “quanto as pessoas reconhecem você? ”. A pergunta é muito mais profunda: O que você está buscando?

Porque aquilo que buscamos revela muito sobre quem somos. E talvez, antes de continuar correndo, precisemos simplesmente parar. Parar. Respirar. Olhar para dentro. Olhar para a nossa vida. Olhar para Deus. E perguntar: “Senhor, o que estou fazendo com a vida que o Senhor me deu? ” Essa é a primeira etapa da nossa auditoria. Antes de continuar correndo, pare. Olhe para sua vida. Examine sua alma. E pergunte: para onde estou indo?

E no próximo domingo, Eclesiastes nos levará a uma pergunta ainda mais desconcertante: depois de descobrir o que estamos buscando, precisamos perguntar: “O que realmente nos satisfaz? ” Porque talvez descubramos que podemos ter prazer, dinheiro, trabalho, conhecimento, conquistas e reconhecimento e, ainda assim, continuar com a alma faminta.

O Espírito Santo e a proclamação das grandezas de Deus - Atos 2:5-13

 


Rio de Janeiro, 04 de outubro de 2026.

Projeto Bíblia - Estudo do Livro de Atos dos Apóstolos

Tema da Mensagem – O Espírito Santo e a proclamação das grandezas de Deus.

Texto Base – Atos 2:5-13

O relato de Atos 2:5-13 representa um momento decisivo na narrativa lucana, pois a manifestação do Espírito Santo, inicialmente experimentada pela comunidade reunida, passa a produzir seus efeitos publicamente, alcançando uma multidão formada por judeus provenientes de diferentes regiões do mundo conhecido. Lucas informa que estavam em Jerusalém judeus piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Essa expressão não deve ser entendida como uma referência literal à presença de todos os povos da humanidade, mas como uma maneira de destacar a amplitude geográfica da diáspora judaica. A festa de Pentecostes, também conhecida como Festa das Semanas, atraía peregrinos de diferentes localidades, criando o cenário providencial para que a manifestação do Espírito fosse testemunhada por pessoas de diversas culturas e idiomas. John Stott observa que esse acontecimento possui um significado que ultrapassa o extraordinário fenômeno das línguas, pois aponta para a natureza universal da missão cristã. O Espírito Santo não estava apenas capacitando os discípulos para uma experiência espiritual particular, mas inaugurando uma nova etapa na história da redenção, na qual o testemunho acerca de Jesus Cristo seria anunciado a todas as nações.

O impacto do acontecimento é descrito por Lucas a partir da reação da multidão, que se reúne ao ouvir aquele som e fica perplexa porque cada pessoa escutava os discípulos falando em sua própria língua. O texto enfatiza que os ouvintes reconheciam seus idiomas maternos, o que indica que o fenômeno não consistia simplesmente em uma manifestação extática ou em sons incompreensíveis, mas em uma comunicação inteligível, realizada sobrenaturalmente pelo poder do Espírito. Howard Marshall chama a atenção para a importância desse detalhe na compreensão do relato: a manifestação das línguas está diretamente relacionada à capacidade de transmitir a mensagem divina a pessoas de diferentes origens. O milagre, portanto, não deve ser interpretado isoladamente como uma demonstração de poder, mas como um sinal que serve à revelação e à proclamação. O Espírito Santo não produz uma experiência desprovida de conteúdo; ele capacita os discípulos a anunciar as grandezas de Deus de maneira que os ouvintes possam compreender. A experiência pentecostal, nesse sentido, revela que a espiritualidade cristã genuína não está dissociada da comunicação da verdade e do testemunho público.

A admiração dos presentes torna-se ainda maior quando percebem que os que falavam eram galileus. A pergunta: “Não são, porventura, galileus todos esses que aí estão falando? ” Revela o contraste entre a origem aparentemente limitada dos proclamadores e a amplitude extraordinária de sua comunicação. A Galileia era frequentemente associada a uma condição periférica em relação aos centros religiosos e intelectuais do judaísmo. Entretanto, aqueles homens, sem qualquer reconhecimento de excelência cultural ou domínio acadêmico das diversas línguas, estavam sendo utilizados por Deus para anunciar sua mensagem a povos distintos. David Garland destaca, em sua leitura do episódio, a transformação dos discípulos, que deixam a posição de testemunhas que aguardavam passivamente o cumprimento da promessa e passam a atuar como proclamadores capacitados pelo Espírito. Essa transformação evidencia que a missão da igreja não depende primordialmente da capacidade natural, do prestígio social ou da competência humana de seus mensageiros, mas da ação soberana de Deus que os chama, capacita e envia. O Pentecostes demonstra que o Espírito não elimina a personalidade, a história ou a origem dos discípulos, mas os utiliza como instrumentos para que a mensagem divina ultrapasse suas limitações naturais.

A extensa relação de povos mencionados nos versículos 9 a 11 possui uma função teológica significativa. Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto, Ásia, Frígia, Panfília, Egito, regiões da Líbia, visitantes de Roma, cretenses e árabes são apresentados como representantes de uma realidade humana marcada pela diversidade geográfica, cultural e linguística. A lista percorre regiões que se estendem do Oriente ao Ocidente, demonstrando simbolicamente a amplitude da ação divina. A presença tanto de judeus quanto de prosélitos é particularmente importante, pois indica que o testemunho do Pentecostes alcança também aqueles que, embora não fossem judeus de nascimento, haviam se aproximado da fé e da adoração do Deus de Israel. John Stott relaciona essa diversidade à dimensão universal da igreja, na qual a unidade produzida pelo Espírito transcende as barreiras étnicas, nacionais e linguísticas sem exigir a anulação das identidades culturais. O episódio também pode ser compreendido em contraste com Babel, em Gênesis 11. Naquela narrativa, a humanidade, movida pela soberba e pelo desejo de construir um nome para si mesma, experimenta a confusão das línguas e a dispersão dos povos. Em Pentecostes, por sua vez, Deus não elimina a diversidade linguística, mas torna possível que pessoas de diferentes idiomas compreendam uma mesma mensagem: as grandezas de Deus. A unidade cristã não nasce da uniformidade cultural, mas da centralidade de uma mesma revelação e da ação reconciliadora do Espírito Santo.

O conteúdo da proclamação é particularmente revelador. Os ouvintes declaram: “Nós os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus”. O centro da manifestação não é a exaltação dos discípulos, tampouco a celebração de suas experiências espirituais, mas a proclamação dos atos poderosos de Deus. Essa expressão abrange as obras divinas na história da salvação, culminando na pessoa, morte, ressurreição e exaltação de Jesus Cristo. O Pentecostes, portanto, não deve ser compreendido apenas como um acontecimento de êxtase religioso, mas como uma manifestação do Espírito orientada para a glória de Deus e para o testemunho acerca de Cristo. Russell Shedd, em sua abordagem da teologia bíblica e da obra do Espírito Santo, enfatiza a relação entre a capacitação espiritual e a missão da igreja. A presença do Espírito não pode ser reduzida à obtenção de experiências extraordinárias, pois sua atuação visa produzir testemunho, edificação e proclamação da verdade divina. Essa perspectiva nos conduz a uma questão pastoral relevante: uma igreja verdadeiramente cheia do Espírito não é necessariamente aquela que mais impressiona por suas manifestações externas, mas aquela cuja vida e proclamação tornam conhecidas as grandezas de Deus.

A reação da multidão, entretanto, não é uniforme. Lucas afirma que todos estavam atônitos e perplexos, perguntando uns aos outros: “Que quer isto dizer? ”. A pergunta revela que o acontecimento havia provocado uma ruptura nas categorias habituais de compreensão daqueles homens. Eles reconheciam que algo extraordinário estava acontecendo, mas ainda precisavam interpretar seu significado. Timothy Keller, ao tratar da relação entre o evangelho e a cultura, frequentemente destaca a necessidade de que a mensagem cristã seja comunicada de maneira compreensível, sem que seu conteúdo seja submetido às expectativas culturais dos ouvintes. Essa perspectiva ajuda a perceber que o Pentecostes não é somente uma demonstração de comunicação sobrenatural, mas também uma revelação do caráter missionário da igreja. Deus se aproxima de pessoas concretas, inseridas em suas próprias histórias, idiomas e contextos, para tornar conhecida sua verdade. A missão cristã, portanto, exige sensibilidade à realidade dos ouvintes, sem comprometer a fidelidade ao evangelho. A igreja não foi chamada a falar apenas para aqueles que já compreendem sua linguagem religiosa, mas a testemunhar de Cristo de maneira que sua mensagem possa ser ouvida e compreendida por pessoas de diferentes contextos.

Todavia, o texto termina apresentando uma reação profundamente contrastante: enquanto alguns perguntavam pelo significado do acontecimento, outros zombavam dos discípulos, afirmando que estavam embriagados. Essa observação de Lucas é teologicamente importante, pois demonstra que a manifestação divina, embora extraordinária e publicamente testemunhada, não produz automaticamente fé ou reconhecimento espiritual em todos os observadores. O mesmo acontecimento que desperta admiração em alguns torna-se motivo de escárnio para outros. David Garland chama atenção para essa divisão de respostas, que antecipa uma característica recorrente ao longo de Atos: a proclamação do evangelho provoca tanto acolhimento quanto resistência. A incredulidade, nesse caso, manifesta-se por meio de uma explicação reducionista, que procura enquadrar o extraordinário dentro de categorias comuns e depreciativas. Em vez de investigar o significado do acontecimento, alguns preferem ridicularizá-lo. A ironia é evidente: aqueles que estavam proclamando as grandezas de Deus são acusados de estarem dominados pelo vinho, quando, na realidade, estavam sendo capacitados pelo Espírito Santo.

Essa oposição entre a ação do Espírito e a interpretação zombeteira dos observadores também oferece uma advertência à igreja contemporânea. Nem toda manifestação religiosa que provoca espanto deve ser automaticamente considerada obra do Espírito, assim como nem toda reação de rejeição representa uma avaliação honesta dos fatos. O discernimento cristão exige que toda experiência seja examinada à luz das Escrituras, de seu conteúdo cristológico e de seus frutos. No Pentecostes, a autenticidade da manifestação está relacionada à sua origem divina, à sua finalidade missionária e ao conteúdo da proclamação: as grandezas de Deus. John Stott nos ajuda a compreender que a igreja não deve confundir o extraordinário com o essencial. O sinal é importante, mas sua finalidade é apontar para a realidade maior da ação redentora de Deus. O Espírito Santo não veio para transformar a igreja em um espetáculo religioso, mas para torná-la testemunha de Cristo diante do mundo.

Sendo assim, o texto nos ensina que o Pentecostes inaugura uma comunidade capacitada pelo Espírito para testemunhar de Deus em meio à diversidade humana. O episódio revela um Deus que toma a iniciativa de comunicar sua verdade, supera barreiras linguísticas e culturais e transforma pessoas comuns em instrumentos de sua missão. Ao mesmo tempo, mostra que a presença e a atuação do Espírito não eliminam a necessidade de interpretação, discernimento e resposta de fé. A pergunta “Que quer isto dizer? ” Permanece como uma questão fundamental para a igreja de todas as épocas. O verdadeiro significado do Pentecostes não está apenas no que aconteceu naquele dia, mas no que Deus estava inaugurando: uma igreja que, cheia do Espírito Santo, anuncia as grandezas de Deus e testemunha de Jesus Cristo até os confins da terra.

BIBLIOGRAFIA:

GARLAND, David E. Atos: série comentário expositivo. São Paulo: Vida Nova, 2019.

KELLER, Timothy. Igreja Centrada. São Paulo: Vida Nova, 2014.

MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2020.

SHEDD, Russell P. A Justiça Social e a Interpretação da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2013.

STOTT, John R. W. A Mensagem de Atos. São Paulo: ABU, 1994.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

3ª MINISTRAÇÃO – CARTA PARA A IGREJA EM PÉRGAMO

 


Rio de Janeiro, 04 de outubro de 2026.  

Estudos das Cartas as Igrejas do Apocalipse

3ª MINISTRAÇÃO – CARTA PARA A IGREJA EM PÉRGAMO

Texto Base – Apocalipse 2:12-17

INTRODUÇÃO:

O livro e seu conteúdo – O livro foi nominado com a tradução da primeira palavra grega do livro, apokalypsis, que significa “revelação”. Pode ser que você já tenha ouvido alguém falar ou ensinar que o significado de apocalipse seja “destruição”, “fim do mundo”, ou alguma outra coisa parecida. Porém, não é isso que significa. Trata-se da revelação que João recebe da parte de Jesus que o ordena a escrever e a compartilhar com os irmãos. O professor de teologia bíblica do seminário Baltimore, Maryland, nos E.U.A explica de forma muito assertiva o conteúdo do livro de Apocalipse: “Quais são as implicações dessa abordagem? Apocalipse não diz respeito ao anticristo, mas ao Cristo vivo. Não diz respeito a um arrebatamento para fora deste mundo, mas a um discipulado fiel neste mundo. Ou seja, como qualquer outro livro do Novo Testamento, Apocalipse trata sobre Jesus Cristo – “Revelação de Jesus Cristo” (Apocalipse 1:1) – e sobre segui-lo em obediência e amor. “Se alguém indagar: ‘Por que ler Apocalipse’, a resposta pronta deve ser: ‘Para conhecer melhor a Cristo’. Nesse último livro da Bíblia cristã, Jesus é retratado sobre tudo como: a Testemunha Fiel, que permanece leal a Deus apesar da tribulação; o que está Presente, que caminha entre a comunidade dos seus seguidores, proferindo palavras de conforto e incentivo por meio do Espírito; o Cordeiro que foi morto e agora reina com Deus, o Criador, compartilhando a devoção e adoração que são devidas somente a Deus e; o que virá, cumprirá todo o propósito de Deus e reinará com Deus no meio do seu povo, no novo céu e na nova terra. Apocalipse, portanto, também nos fala sobre sermos fiéis a Deus e obedientes ao Espírito ao seguirmos Jesus, especificamente em: testemunho e resistência fiéis; escuta atenta; uma vida litúrgica (permeada pela adoração) e; esperança missional”.[1]  

Quem é o autor da carta e quando ela foi escrita? Estudiosos modernos têm questionado a autoria da carta que comumente é dada praticamente de forma unânime ao apóstolo João desde os pais da Igreja, com raras exceções tais como Eusébio (325) e Dionísio de Alexandria no terceiro século. O estudioso do Novo Testamento que foi por muitos anos professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, Dr. Broadus Davi Hale, em sua obra Introdução ao Novo Testamento faz o seguinte comentário acerca da evidência externa da autoria de João: “Embora Hermas e Inácio possam ter feito uso do Apocalipse, Justino Mártir, no que concerne à evidência preservada, foi o primeiro a declarar explicitamente que o apóstolo João escreveu o Apocalipse (Diaogue With Trypho the Jew, 81). Como Justino viveu em Éfeso em torno de 135 d.C., esta informação é importante. O Cânon Muratoriano (c. 175) contém o Apocalipse e diz que o apóstolo João é o autor. Irineu (c.180), pupilo de Policarpo, escreveu que João, o discípulo do Senhor, viveu na Ásia até os tempos de Trajano” e escreveu o Apocalipse pelo final do reinado de Domiciano (Ad. Haerses, V, xxx, 3). No final do segundo século, Polícrates, Clemente de Alexandria e Tertuliano, todos, testemunharam do apóstolo João como autor do Apocalipse. Orígenes (c.225) escreveu que o João que “se reclinava sobre o peito do Senhor” escreveu tanto o evangelho quanto o Apocalipse (citado em Eusébio, H.E., VI, xxv, 9). Depois de Orígenes, todos os escritores, com duas exceções, aceitam sem contestar a autoria joanina do Apocalipse”.[2]

Um importante centro político e religioso – Pérgamo não era uma cidade comercial tão importante quanto Éfeso e Esmirna, mas era extremamente importante como um centro político e religioso. Após a morte de Alexandre, o Grande, em 333 a.C. Átalo, o último rei de Pérgamo, passou o reino a Roma em seu testamento. Pouco tempo depois, Pérgamo passou a ser a capital da província romana na Ásia. No 29 a.C. foi dedicado um templo "ao divino Augusto e a deusa Roma", e dessa maneira Pérgamo se tornou o principal lugar de adoração ao imperador na Ásia. A adoração ao imperador tornou-se uma prova de sua lealdade a Roma. O culto ao imperador havia se tornado o ponto central da política junto ao império.

Uma cidade mergulhada na idolatria - "Pérgamo era também o centro de culto a outros deuses. Na cidade havia uma acrópole de uns 300 metros de altura com muitos templos a deuses pagãos. No topo havia um bonito templo dedicado a Zeus, tendo ao lado um templo da deusa Atenas. Pérgamo também era o centro do culto a Asclépio, o deus-serpente das curas, e seu colégio de sacerdotes-médicos era famoso. Pérgamo, assim era uma fortaleza das religiões pagãs e do culto ao imperador, um ambiente extremamente difícil para uma igreja local." (Ladd, pg. 37)

“Escreve ao anjo em Pérgamo: Assim diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes”: (verso 12)

            Osborne vai destacar em seu comentário que essa é a apresentação mais simples da pessoa de Jesus dentre todas as sete cartas por Ele enviadas as sete igrejas da Ásia Menor. A única descrição que Jesus faz é de ser o possuidor da espada afiada de dois gumes.

A “espada afiada de dois gumes” era um símbolo romano de justiça. A espada era usada pelo procônsul romano que residia em Pérgamo. Ele a usava para os julgamentos e inclusive para executar os inimigos do estado. Ao se utilizar deste símbolo o Senhor Jesus está dizendo a sua igreja que o verdadeiro juízo provém d’Ele, pois Ele É o verdadeiro juiz. Muito provavelmente exista uma ligação dessa apresentação de Jesus com a promessa feita em Isaías 11.4.

“Sei onde habitas, onde está o trono de Satanás, mas conservas o meu nome e não negaste a minha fé, mesmo nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, que foi morto entre vós, onde Satanás habita”. (verso 13)

            Jesus destaca que tem conhecimento de três coisas: o mundo ímpio ao qual eles moravam, Ele também conhecia o testemunho fiel e a perseverança daqueles irmãos em meio as perseguições que sofriam.

            Existem algumas hipóteses para a interpretação do termo “trono de Satanás”. Vejamos: 1) A cidade está localizada em um platô, a certa distância, a acrópole se parecia com um trono; 2) A enorme variedade de ídolos pagãos, templos e santuários poderiam ser os instrumentos de Satanás; 3) O altar a Zeus no cume de um monte que possuía uma enorme proeminência na cidade; 4) A cidade era o centro da adoração a Asclépio, e o símbolo de Asclépio era uma serpente. Satanás também é simbolizado como uma serpente Ap. 12.9; 20.2. Os seguidores dessa seita chamavam-no de “salvador”; 5) A última e em minha opinião a interpretação correta é a de que a cidade possuía um culto ao imperador romano.

“No entanto, tenho contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão, o qual ensinou Balaque a armar ciladas contra os israelitas, induzindo-os a comer alimentos sacrificados a ídolos e a praticar imoralidade sexual. De igual modo, você tem também os que se apegam aos ensinos dos nicolaítas." (versos 14 e 15)

Ao contrário da igreja de Éfeso que resistiu aos falsos mestres e seus heréticos ensinamentos, um grupo de pessoas em Pérgamo havia sido influenciado pelas falsas doutrinas e haviam se contaminado.

Mais uma vez nos deparamos com "os nicolaítas" um grupo de gentios "convertidos" ao cristianismo que ensinavam que não havia erros em se alimentar as comidas sacrificadas aos ídolos, e praticar sexo antes e fora do casamento. Eles também de acreditavam não ter problemas participar do culto ao imperador, dizendo eles que o culto ao imperador é mais um ato cívico e do que um ato de adoração.

Jesus se utiliza do exemplo de Balaão do Antigo Testamento registrado em Números 22-24, um profeta gentio que foi procurado por Balaque, rei de Moabe para amaldiçoar a Israel, mas Deus não permitiu que isso acontecesse e, ao invés dele proferir maldição o Senhor fez ele proferir bênçãos, pois contra o povo de Deus não vale encantamentos ou maldição sem causa.

Todavia, em Números 25:1-3 os israelitas são descritos caindo na imoralidade sexual com as mulheres moabitas e também caindo na idolatria a Baal. Moisés diz em Números 31.16 que as mulheres moabitas foram aconselhadas por Balaão a seduzirem aos israelitas.

Osborne indica que a melhor forma de interpretamos esses versos que descrevem a doutrina de Balaão e a doutrina dos nicolaítas com um só movimento herético. A ideia é que Jesus se utilizou de um exemplo conhecido para condenar a doutrina dos nicolaítas.

O mesmo Grant Osborne salienta o fato da "doutrina dos nicolaítas" ser algo muito mais ligado a práxis da vida cristã do que uma doutrina (teoria). Lembrando que as práticas heréticas ensinadas pelos nicolaítas quebravam duas de quatro proibições impostas no concílio de Jerusalém. (Atos 15)

Eles ensinavam que não havia problema com as imoralidades praticadas no sexo antes e fora do casamento e que também não havia problema no culto ao imperador pois era, no ponto de vista deles, muito mais um ato cívico do que religioso como anteriormente explicado. Além de permitirem o consumo das carnes oferecidas aos deuses pagãos.

Em relação as carnes oferecidas temos uma dificuldade em saber se essa carne era comprada nos supermercados da época, porém tendo sido oferecida antes de ser vendida, ou se realmente eles participavam dos rituais e ali consumiam os alimentos. O apóstolo Paulo trata desses dois casos ao escrever a primeira carta aos Coríntios.

"Portanto, arrependa-se! Senão, virei em breve até você e guerrearei contra eles com a espada da minha boca." (verso 16)

Diferente da igreja de Éfeso que lutou contra os falsos mestres e seus ensinos e foi lhe advertido que haviam perdido o seu primeiro amor, mas eles não toleraram os nicolaítas e na luta os levou a esse processo do abandono do primeiro amor. Pérgamo por sua vez tolerava esses hereges e permitia que eles estivessem em seu meio praticando e ensinando suas práticas podendo arrastar outros para apostasia.

Jesus é enfático lhes mandando se arrependerem ou então Ele iria guerrear contra eles. Essa expressão é usada outras vezes no Apocalipse para descrever a luta de Jesus contra o dragão e a besta (11.7; 12.17; 13.7), a luta contra as forças do mal (12.7; 19.11). Jesus se utilizava de uma metáfora, o guerreiro divino, para descrever sua luta contra seus inimigos. No dia da sua vinda e do estabelecimento pleno de seu Reino, Jesus irá trazer juízo e nesse sentido irá fazer guerra contra todos aqueles que não estão ao seu lado lutando contra os inimigos d'Ele, isso mesmo, estar ao lado de Jesus significa estar em guerra junto com Ele.

Não dá para não guerrear, não dá para ser tolerante aos falsos ensinos que expressam práticas que são uma afronta direto à vontade de Deus estabelecida em sua Palavra. Um cristão verdadeiro está armado com a armadura espiritual e em guerra contra os valores desse mundo hostil que é governado pelo diabo e seus anjos malignos, inimigos do cordeiro

“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. Àquele que vencer darei do maná escondido. Também lhe darei uma pedra branca com um novo nome escrito nela, conhecido apenas por aquele que a recebe”. (Verso 17)

A mesma expressão é usada novamente "Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas". Essa expressão foi utilizada no evangelho de Marcos 4.9, é um chamado, um alerta, um oráculo para os vencedores, aqueles que permanecem fiéis até o final de suas vidas. Não adianta apenas ouvir as orientações de Jesus, é preciso praticá-las. Só vence na vida cristã quem é obediente!

O maná só pode ser experimentado pelos eleitos, pelos salvos, não é permitido aos incrédulos e idólatras participar do banquete do Senhor. É forte na tradição judaica a figura do maná que será dado aos eleitos na festa do Messias no fim dos tempos. Segundo a tradição judaica Jeremias foi orientado por Deus durante a destruição do templo para guardar a enterrar a arca no Monte Sinai para ela aguardar a retirada com o retorno do Messias no escaton. Jesus também ensina a seus discípulos sobre as bodas do cordeiro. Ele mesmo disse que era o pão vivo que desceu dos céus. Aos seus é dado o direito de experimentar já hoje, ainda neste tempo presente, um antegosto do que está sendo preparado para aquele grande dia na consumação plena do seu Reino.

CONCLUSÃO E APLICAÇÃO:

            Fica um alerta para os nossos dias em relação à questão da defesa de nossa fé e os valores pelos quais nos sãos propostos pela nossa regra de fé e prática que é a Bíblia, a Palavra de Deus. Muitos cristãos no desejo de serem tolerantes e respeitosos, acabam sendo coniventes com comportamentos e doutrinas que são diretamente contra os doutrinas e princípios extraídos da Palavra de Deus.

            Urge que nesse tempo sejamos capazes de saber defender a sã doutrina e praticá-la de forma correta em nossas práxis de vida cristã. A princípio, em uma análise superficial, aparentemente falta aos cristãos de nosso tempo convicção de fé que possam lhes guiar os passos em seu cotidiano. São nossas convicções de fé que nos dão concretude para ser fiel até a morte.

 

 

 



[1] GORMAN, Michael J. Lendo Apocalipse com responsabilidade: testemunho e adoração incivil: seguindo o Cordeiro rumo à nova criação. Rio de Janeiro, Thomas Nelson Brasil, 2022, pg. 15.

[2] HALE, Broadus David. Introdução ao Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1983, pg. 432

 

domingo, 27 de setembro de 2026

7ª Ministração - Pentecostes - Atos 2:1-4

 


Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2026.

Projeto Bíblia - Estudo do Livro de Atos dos Apóstolos

Tema da Mensagem – Pentecostes

Texto Base – Atos 2:1-4

INTRODUÇÃO:

                O texto que nos está proposto para nossa reflexão é um texto que provocou e provoca durante séculos da história da igreja inúmeras discordâncias doutrinarias. Todavia, o que pouco se percebe e pouco se aplica, é o conteúdo bíblico tão rico contido neste texto acerca do iniciar das obras do Espírito Santo sobre a vida do povo de Deus.

            Diferente dos outros três evangelistas. Lucas, o médico amado, enfoca muito a importância e os Atos do Espírito Santo em seus escritos. Em seu evangelho ele narra quando Jesus é batizado por João o Batista, e como a pomba, que simboliza o Espírito Santo desceu sobre ele, para que ele pudesse iniciar seu ministério. Durante todo o decorrer da vida de Jesus ele foi “cheio” do Espírito Santo, “guiado” pelo Espírito Santo, viveu “no poder” do Espírito Santo e foi “ungido pelo Espírito Santo”. (Lc. 3.21-22; 4.1; 14,18)

            John Stott em seu comentário sobre o livro de Atos dos Apóstolos vai dizer o seguinte: “Sem o Espírito Santo, o discipulado cristão seria inconcebível, impossível, até. Não pode haver vida sem o doador da vida, nem entendimento sem o Espírito da verdade, nem comunhão sema unidade do Espírito, nem caráter semelhante a Cristo sem o seu fruto, nem testemunho efetivo sem o seu poder. Assim como um corpo sem respiração é um cadáver, a igreja sem o Espírito é morta”. [1]

            O dia de Pentecostes era o inaugurar de um novo tempo. O Espírito Santo agora iria direcionar sua igreja na sua Palavra da Verdade. O Espírito Santo estava agora derramado no coração dos seus filhos os capacitando e orientando para toda boa obra do ministério.

            Podemos destacar quatro objetivos no dia de pentecostes: 1) Foi o ato final do ministério de Jesus até a sua segunda volta à terra. Agora Ele havia derramado o Espírito sobre a vida de seus discípulos cumprindo sua promessa; 2) O Espírito Santo trouxe para os apóstolos a ferramenta que eles precisavam para o cumprimento de seu ministério; 3) O Pentecostes inaugurou um novo tempo. Foi o iniciar da era do Espírito sobre o comando da igreja. 4) O Pentecostes tem sido interpretado pelos estudiosos do Novo Testamento como o primeiro “reavivamento” da história da igreja.

            Tentarei expor o texto Bíblico de forma expositiva. Sendo assim, lerei o texto e explicarei o mesmo a parti das regras da exegese e da hermenêutica.

            Tempo e Local do acontecimento – A Bíblia não nos deixa claro o local que aconteceu o fenômeno. Não temos a certeza se o mesmo aconteceu no cenáculo que fora narrado a reunião do capítulo anterior ou se fora realizado em algum outro lugar alugado pelos apóstolos, como eles tinham o costume de fazer. Todavia, já o tempo em que o acontecimento ocorreu a Bíblia diz. O texto relata que a descida do Espírito sobre os apóstolos se deu exatamente no dia de Pentecostes. Vale agora explicar o que é o dia de Pentecostes.

            Pentecostes – Pentecostes era uma das três festas em que o judeu celebrava todo ano em Jerusalém. Todo judeu migrava para a cidade e então celebravam as três festas. A festa do Pentecostes também era chamada festa da colheita ou a festa das semanas. Pentecostes significa (quinquagésimo) porque ela acontecia exatamente cinquenta dias após a Páscoa. Os judeus pouco tempo antes dos dias de Jesus começaram também a fazer um link com cinquenta dias após a entrega da Lei para Moisés no Sinai.

            “É, portanto, tentador encontrar um simbolismo duplo, de ceifa e de entrega da lei, no dia de Pentecostes. Certamente houve uma grande ceifa de três mil almas naquele dia, os primeiros frutos da missão cristã. Crisóstomo escreve que “havia chegado a hora de lançar a foice da palavra, pois aqui, tal como uma foice afiada, desceu o Espírito”. Certamente, também, os profetas do Senhor: “porei dentro de vós o meu Espírito” e “na mente lhes imprimirei minhas leis, também no coração lhes inscreverei”, pois, o Espírito Santo faz quando entra nos nossos corações é escrever a lei a sua lei, como Paulo ensinou claramente. Mesmo assim, Lucas não explica o simbolismo. Sendo assim, não podemos saber se isso era importante para o autor, apesar da tradição judaica associar o vento, o fogo e as vozes com o monte Sinai, os três fenômenos que descreverá logo em seguida”.[2]

Os três fenômenos (vento, fogo e vozes) – Lucas diz que este fenômeno aconteceu de repente. O Espírito de Deus foi derramado sobre eles e a Bíblia diz que aconteceram três fenômenos. Primeiro veio uma voz do céu como um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. Segundo, apareceram visivelmente línguas como de fogo, e pousou sobre cada um deles. E o terceiro fenômeno foi que todos ficaram cheios do Espírito Santo e falaram em outras línguas.

            Em um primeiro momento esses fenômenos pareciam ser naturais. Mas na verdade eles não eram nada naturais. Eles eram sobrenaturais, tanto na sua origem como no seu caráter. Eles não apenas sentiram, não foi algo meramente sensorial. Foi extremamente significativo.

            Esses três sinais eram um simbolismo de uma nova era do Espírito. João Batista associou o vento ao fogo como uma obra que o Espírito iria realizar. Se olharmos por este prisma pode-se interpretar que o vento na verdade significa poder. O que Jesus havia lhes prometido para que eles pudessem testemunhar sobre sua morte e ressurreição. Já a visão do fogo, poderia significar pureza. Semelhantemente ao profeta Isaias quando foi tocado pela brasa viva e foi purificado os discípulos foram purificados pelo toque do Espírito naquele momento. E as línguas podem ser entendidas como um sinal da universalidade do evangelho.

            Dois dos três fenômenos não mais acontecem durante a narrativa de Lucas. O fenômeno que volta a acontecer na narrativa do autor é o de falar em outras línguas. O que na opinião deste que vos escreve, e por consequência lhes falará, é uma forma de comprovação de que o mesmo Espírito está envolvido e realizando a mesma obra que iniciou no Pentecostes. Ele acontece algumas outras vezes comprovando que é o mesmo movimento que está acontecendo.

Conclusão:

            O Pentecostes inaugurou uma nova era. A igreja de Jesus agora é guiada pelo Santo Espírito para o cumprimento de sua missão. É o Espírito Santo que continua a obra até o retorno do Senhor Jesus em sua glória para podermos desfrutar das mansões celestiais. A igreja deve estar em constante comunhão com o Espírito e buscando seu poder e sua graça para cumprir cabalmente a corrida que lhe está proposta.

                       

Bibliografia:

MARSHALL, I. Howard. Atos, introdução e comentário. Ed. Vida Nova: São Paulo. pp. 400.

STOTT, John R. W. A mensagem de Atos, Ed. ABU. São Paulo, 1990. pp.462.



[1] STOTT, pp.63.

[2] STOTT, pp.65.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

2ª MINISTRAÇÃO – CARTA PARA A IGREJA EM ESMIRNA

 


Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2026.  

Estudos das Cartas as Igrejas do Apocalipse

2ª MINISTRAÇÃO – CARTA PARA A IGREJA EM ESMIRNA

Texto Base – Apocalipse 2:8-11

INTRODUÇÃO:

O livro e seu conteúdo – O livro foi nominado com a tradução da primeira palavra grega do livro, apokalypsis, que significa “revelação”. Pode ser que você já tenha ouvido alguém falar ou ensinar que o significado de apocalipse seja “destruição”, “fim do mundo”, ou alguma outra coisa parecida. Porém, não é isso que significa. Trata-se da revelação que João recebe da parte de Jesus que o ordena a escrever e a compartilhar com os irmãos. O professor de teologia bíblica do seminário Baltimore, Maryland, nos E.U.A explica de forma muito assertiva o conteúdo do livro de Apocalipse: “Quais são as implicações dessa abordagem? Apocalipse não diz respeito ao anticristo, mas ao Cristo vivo. Não diz respeito a um arrebatamento para fora deste mundo, mas a um discipulado fiel neste mundo. Ou seja, como qualquer outro livro do Novo Testamento, Apocalipse trata sobre Jesus Cristo – “Revelação de Jesus Cristo” (Apocalipse 1:1) – e sobre segui-lo em obediência e amor. “Se alguém indagar: ‘Por que ler Apocalipse’, a resposta pronta deve ser: ‘Para conhecer melhor a Cristo’. Nesse último livro da Bíblia cristã, Jesus é retratado sobre tudo como: a Testemunha Fiel, que permanece leal a Deus apesar da tribulação; o que está Presente, que caminha entre a comunidade dos seus seguidores, proferindo palavras de conforto e incentivo por meio do Espírito; o Cordeiro que foi morto e agora reina com Deus, o Criador, compartilhando a devoção e adoração que são devidas somente a Deus e; o que virá, cumprirá todo o propósito de Deus e reinará com Deus no meio do seu povo, no novo céu e na nova terra. Apocalipse, portanto, também nos fala sobre sermos fiéis a Deus e obedientes ao Espírito ao seguirmos Jesus, especificamente em: testemunho e resistência fiéis; escuta atenta; uma vida litúrgica (permeada pela adoração) e; esperança missional”.[1]  

Quem é o autor da carta e quando ela foi escrita? Estudiosos modernos têm questionado a autoria da carta que comumente é dada praticamente de forma unânime ao apóstolo João desde os pais da Igreja, com raras exceções tais como Eusébio (325) e Dionísio de Alexandria no terceiro século. O estudioso do Novo Testamento que foi por muitos anos professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, Dr. Broadus Davi Hale, em sua obra Introdução ao Novo Testamento faz o seguinte comentário acerca da evidência externa da autoria de João: “Embora Hermas e Inácio possam ter feito uso do Apocalipse, Justino Mártir, no que concerne à evidência preservada, foi o primeiro a declarar explicitamente que o apóstolo João escreveu o Apocalipse (Diaogue With Trypho the Jew, 81). Como Justino viveu em Éfeso em torno de 135 d.C., esta informação é importante. O Cânon Muratoriano (c. 175) contém o Apocalipse e diz que o apóstolo João é o autor. Irineu (c.180), pupilo de Policarpo, escreveu que João, o discípulo do Senhor, viveu na Ásia até os tempos de Trajano” e escreveu o Apocalipse pelo final do reinado de Domiciano (Ad. Haerses, V, xxx, 3). No final do segundo século, Polícrates, Clemente de Alexandria e Tertuliano, todos, testemunharam do apóstolo João como autor do Apocalipse. Orígenes (c.225) escreveu que o João que “se reclinava sobre o peito do Senhor” escreveu tanto o evangelho quanto o Apocalipse (citado em Eusébio, H.E., VI, xxv, 9). Depois de Orígenes, todos os escritores, com duas exceções, aceitam sem contestar a autoria joanina do Apocalipse”.[2]

  • Uma cidade rica e portuária - A semelhança de Éfeso, a cidade de Esmirna era muito rica e extremamente popular. Esmirna disputava com a cidade de Éfeso o título de cidade mais rica e importante da Ásia naqueles dias.
  • O templo ao imperador Tibério - Em Esmirna foi construído o templo em adoração ao imperador romano Tibério.
  • Uma colônia de judeus ostensiva - Em Esmirna residia uma colônia ostensiva de judeus contra o cristianismo. Inácio, o famoso bispo de Esmirna, foi morto e lançado à fogueira com auxílio dos judeus dessa colônia segundo a tradição. Os cristãos foram impedidos até mesmo de pegarem os restos mortais de seu pastor.
  • Fundação da Igreja e status da igreja - Não temos a informação acerca de quem fundou a igreja em Esmirna. Mas, muito provavelmente possa ter sido o apóstolo Paulo em uma de suas viagens missionárias ou até mesmo no período em que esteve em Éfeso, pois Esmirna geograficamente era próxima. Os estudiosos acreditam que Esmirna era uma igreja saudável e vibrante. Esse fato é evidenciado por ser a única igreja das sete igrejas ao qual Jesus escreve que não recebe nenhuma repreensão.

"Escreve ao anjo da igreja em Esmirna: Isto é o que diz o primeiro e o último, aquele que foi morto e reviveu". (verso 8)

A expressão “Ao anjo escreve...” é extraída dos textos de Ap 1.20 e também em Ap 2.1; 2.8; 2.12; 2.18; 3.1; 3.7; 3.14. Existem muitas especulações sobre o significado da palavra “anjo” usada pelo apóstolo João nos textos acima citado.

            A palavra grega “aggelos” que é traduzida por anjo em nossas versões bíblicas podem possuir pelo menos dois significados. O primeiro pode ser literalmente anjo, ou seja, um ser celestial que é conceituado pela Bíblia como espíritos ministradores que estão sobre as ordens de Deus para servirem a seus propósitos (Hb 1.14). O segundo pode significar um mensageiro, neste caso, um ser humano que está incumbido de transmitir uma mensagem.

            Os estudiosos não são unânimes quanto a interpretação para utilização da palavra usada por João. Para ser muito sincero com os irmãos a percepção que tenho ao ler os comentários destes irmãos é que eles explanam as possíveis interpretações emanadas ao longo da história da igreja, mas que não emitem sua opinião pessoal acerca da interpretação da palavra.

            Porém, alguns conceituados estudiosos tais como: John MacArthur Jr., Hernandes Dias Lopes, Augustus Nicodemos são categóricos em afirmar que a palavra se refere ao pastor de cada uma das igrejas locais aos quais Jesus estava direcionando as cartas.

            As cartas que Jesus direciona as sete igrejas da Ásia Menor possuem aspectos específicos de cada uma daquelas igrejas. As cartas também servem como orientação a igreja de Cristo de todos os tempos.

Essas cartas são direcionadas aos pastores devido eles serem os responsáveis diante de Deus por cada um daqueles rebanhos. O texto bíblico de Hebreus nos revela esse ensinamento: "Obedecei a vossos líderes, sendo-lhes submissos, pois eles estão cuidando de vós, como quem há de prestar contas; para que o façam com alegria e não gemendo, pois isso não vos seria útil." (Hebreus 13.17)

            Partindo desse pressuposto de autoridade estabelecido por Deus muitos pastores manejando versos como o citado tornam-se verdadeiros déspotas e acabam oprimindo o rebanho do Senhor contrariando uma orientação bíblica expressa dada pelo apóstolo Pedro: “Portanto, suplico aos presbíteros que há entre vós, eu que sou presbítero com eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que será revelada: "pastoreai o rebanho de Deus que está entre vós, cuidando dele não por obrigação, mas espontaneamente, segundo a vontade de Deus; nem por interesse em ganho ilícito, mas de boa vontade;" nem como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. Quando o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imperecível coroa da glória”. (1 Pedro 5:1-4)

            Por outro lado, muitos irmãos esquecem que quem constitui um pastor sobre a liderança de uma igreja é o Senhor da igreja, ou seja, o próprio Senhor Jesus. Muitos irmãos acabam confundindo o procedimento amoroso, educado, bondoso com fraqueza. Acabam trazendo um peso a vida do pastor e de sua família levando-os a pastorear o rebanho não por prazer, mas por obediência ao Senhor que ali os colocou.

            A sabedoria bíblica é bem clara enquanto a vontade de Deus para a direção de sua igreja. Jesus é o verdadeiro Pastor da igreja, porém suas ordens e orientações para sua noiva é direcionada aquele a quem Ele constituiu bispo sobre o rebanho d’Ele, ou seja, o pastor local, que aos olhos de Deus é um auxiliar de Jesus, o verdadeiro pastor da igreja.

A função do pastor é transmitir a igreja a orientação de Jesus para o seu rebanho. Vale destacar que tanto o pastor, tanto o rebanho, precisam ser submissos a vontade de Jesus. Sendo assim alguns desafios são estabelecidos.

O desafio do pastor é buscar intensamente a presença de Deus afim de que em Deus ele consiga ouvir e discernir a vontade de Deus para o seu povo, guia-lo dentro da Palavra de Deus, da sã doutrina que foi transmitido pelos apóstolos de Jesus. Essa é a orientação paulina: “O que ouviste de mim, diante de muitas testemunhas, transmite a homens fiéis e aptos para também ensinarem a outros” (2 Timóteo 2.2) Um verdadeiro pastor tem a difícil (se encarada de forma carnal impossível) de ser um sucessor dos apóstolos e ser um guardião da sã doutrina afim de que o rebanho não se desvie da Palavra de verdade. 

O desafio do rebanho é se unir ao pastor e ser obediente a este a quem o Senhor deu autoridade para pastorear o rebanho. Isto é, quando este pastor é alguém que dá testemunho com sua vida de que é digno de confiança e cumpre os requisitos descritos pela Palavra de Deus das qualidades exigidas de um ministro do evangelho de Jesus. Qual é a dificuldade em se permitir ser pastoreado, conduzido a vontade de Deus através da vida deste pastor?

Quando pastor e rebanho se submetem ao Supremo Pastor a vontade de Deus é estabelecida e o fardo se torna leve e o jugo se torna suave (Mateus 11.28). Minha sincera oração é que nosso rebanho continue submisso a vontade de seu Supremo Pastor!

A apresentação inicial de Jesus envolve um encorajamento aos irmãos que estavam sendo perseguidos e ameaçados de morte. Jesus garante a seus servos fiéis que assim como ele morreu e reviveu, assim também acontecerá a todos aqueles que n'Ele creem e permanecem fiéis até a morte.

No outro atributo manifesto por Jesus está o fato d'Ele ser um com o Pai e estar presente. Mas não somente presente, mas participante de toda obra realizada pelo Pai antes que todas as coisas pudessem existir. Ser o primeiro e o último invoca a Jesus a questão de sua divindade, pois essa expressão evoca atributos que somente o próprio Deus possui, tais como: eternidade, onipotência, onisciência, etc.

Sendo assim o Senhor Jesus no primeiro momento apresenta-se de forma majestosa e poderosa para trazer a memória de seus seguidores que Ele é Soberano e que Ele está no controle de todas as coisas. Nada pode fugir do seu domínio. Seu desejo é tranquilizar os irmãos e conscientizá-los de que eles não estão só e que Ele, Jesus, está com eles em todo momento e aos que forem fiéis até o fim herdaram a promessa da vida eterna.

“Conheço tua tribulação e tua pobreza, apesar de seres rico, e a blasfêmia dos que dizem ser judeus, mas não são; pelo contrário, são sinagoga de Satanás." (Verso 9)

O Senhor conhece e acompanha próximo as dificuldades e as lutas econômicas enfrentadas por eles devido as fortes e hostis perseguições sofridas. Muitos irmãos perdiam suas propriedades, tinham dificuldade em ter seu sustento devido ao ambiente hostil da cidade contra os servos fiéis de Jesus, por isso não conseguiam trabalho para angariar seu sustento e o de sua família.

Todavia, Jesus diz em um paradoxo que eles eram ricos. Eles ajuntaram para si tesouro no local direcionado pelo Senhor Jesus no sermão do monte, eles ajuntaram tesouros no Reino dos Céus. Parece também haver uma possível comparação com a igreja em Laodicéia. Local onde os irmãos eram ricos economicamente, mas pobres em seu relacionamento com de Deus e em suas práticas cristãs.

A palavra "blasfêmia" não nos fornece o sentido pelo qual ela é usada. Os estudiosos como Dr. George Eldon Ladd acredita ser uma referência dos pagãos e judeus a um crime de sedição contra o imperador. Essa interpretação tem seu entendimento baseado nas acusações sofridas por Paulo em Tessalônica e também no escrito posterior à morte de Inácio no livro "O martírio de Inácio" onde o texto relata que Inácio foi acusado de sedição.

Essa acusação era oriunda dos judeus que de forma hostil e implacável perseguiam os irmãos. Jesus diz que não verdade eles serviam a Satanás numa alusão a sua fé ser não na pessoa de Deus, mas sim no diabo, pois suas ações e crenças não possuíam bases fundamentadas na lei de Deus.

Eles são chamados pelo Senhor a se identificarem com seu Mestre no sofrimento e nas perseguições. Jesus já havia ensinado no sermão no monte que aqueles que passassem sofrimento e perseguição por amor a Ele são na verdade felizardos. “Bem-aventurados sois, quando vos insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, pois a vossa recompensa no céu é grande; porque assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós”. (Mateus 5:11-12)

"Não temas o que hás de sofrer. O Diabo está para colocar alguns de vós na prisão, para que sejais provados; e passareis por uma tribulação de dez dias. Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida." (verso 10)

            Os judeus possuíam uma grande influência na cidade e pressionavam as autoridades para que fosse desencadeado uma perseguição contra a igreja de Jesus. O Senhor está avisando aos irmãos que esse período seria breve, mas intenso. O Senhor desejava preparar sua igreja para o que estava para acontecer. É por este motivo que Jesus diz aqueles irmãos: “Não temas”, pois Ele sabia o que eles iriam sofrer, mas que Eles tivessem bom ânimo, pois Ele estaria junto com eles até o fim.

            Naqueles dias todo cristão deveria de estar pronto, caso fosse preciso, entregar a sua própria vida por testemunho público de sua fé em Cristo Jesus. A perseguição, as prisões, os espancamentos, e até mesmo o martírio eram vistos como um privilégio para aqueles que sofressem pois evidenciava o seu amor por Jesus.

            O número dez não possui nenhuma conotação simbólica aqui neste texto. Trata-se somente do período de tempo em que os cristãos iriam ser provados naquela localidade, ou seja, não seria uma perseguição geral, mas especificamente na cidade de Esmirna. A promessa da coroa da vida não era apenas para os mártires, mas sim um privilégio que é garantido a todo verdadeiro cristão que permanece firme com o Senhor até o fim de sua vida.

            A coroa que está proposta a ser entregue para todo crente fiel ao Senhor Jesus não é semelhante a uma coroa que o vencedor de uma maratona, ou uma corrida recebia ao vencer a disputa. Essa coroa que era dada ao atleta vencedor era perecível e temporária. A coroa que Jesus dará a todos os seus servos fiéis é imperecível e indestrutível. O prêmio para o crente fiel é a vida eterna!

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. O vencedor de modo algum sofrerá a segunda morte” (verso 11)

A semelhança dos oráculos contidos no Antigo Testamento o apóstolo João recebe do Espírito Santo uma incumbência de revelar a vontade de Deus e exortar aos cristãos não somente daquele tempo presente, mas de todos os tempos, a ouvir e praticar o que o profeta estava revelando da parte do Senhor Jesus.

Todas as sete cartas terminam com uma promessa ao vencedor. Todavia, vale ressaltar que não há vitória sem luta, sem guerra. A vida cristã é um palco de guerra. Tomemos o exemplo da figura do soldado e sua armadura utilizada pelo apóstolo Paulo em sua carta aos Efésios no capítulo seis para nos ensinar acerca das armas espirituais. O apocalipse revela como os dias serão maus e como será difícil se manter fiel, mas o texto profético também revela a vitória de Jesus e junto a Ele todo aquele que for fiel até a morte, em alguns casos sendo necessário selar seu testemunho com a própria vida. Osborne diz ser uma das mais importantes mensagens do livro o desafio de ser um “vencedor”. Ele relata que o apóstolo João está se utilizando de uma metáfora esportiva e militar, que conota superioridade e vitória sobre um inimigo subjugado.

A segunda morte será esclarecida um pouco mais à frente no próprio livro de Apocalipse. Mas Jesus já havia ensinado aos seus discípulos acerca do inferno. Esse termo é uma conotação da morte eterna, o lugar de condenação que fora preparado para o diabo e seus anjos. (Mt 25:41-42; Ap 20.10)

Alguns estudiosos ao longo do tempo tentaram de alguma forma minimizar o juízo de Deus para aqueles que rejeitam o sacrifício de seu Filho amado. Disseram eles que o “inferno não existe”, “que o verdadeiro inferno é aqui”, “que não haverá inferno que as pessoas que não aceitaram o filho apenas deixaram de existir” (doutrina anaquilacionismo), “haverá possibilidades de expurgar pecados em um lugar chamado purgatório evitando a condenação eterna”. Todavia, nada disso é verdade. O ensino bíblico é que quem não crer no Filho de Deus, em sua obra redentora, será condenado por seus pecados e será lançado nesse lugar que popularmente é conhecido como inferno e, ali junto com o diabo e seus anjos sofrerá a morte eterna e sofrerá a eternidade distante de Deus, sendo incapaz de haver uma alteração de seu estado para todo sempre.

CONCLUSÃO E APLICAÇÃO:

            Essa é uma carta bem apropriada para todos os cristãos que estão passando por algum tipo de provação e sofrimento devido a sua fé em Jesus. O Senhor nunca nos prometeu uma vida de facilidades e bênçãos sem fim, muito pelo contrário, nos advertiu que no mundo enfrentaríamos muitas tribulações, mas que tivéssemos bom ânimo, pois assim como Ele venceu o mundo, junto d’Ele também venceríamos. (Jo 16.33) Vale lembrar as palavras do apóstolo Paulo como esperança para nossas vidas: “Considero que os sofrimentos do presente não se podem comparar com a glória que será revelada em nós”. (Rm 8.18)

            É extremamente oportuna as palavras de Jesus aos irmãos em Esmirna durante o seu período de provação: “Não Temas”.  Continuem firmes meus amados irmãos, em breve estaremos com nosso Senhor e não haverá mais nada que nos produzirá algum tipo de dor ou sofrimento. Todavia, precisamos ser fiéis até a morte ou até o retorno glorioso do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. 



[1] GORMAN, Michael J. Lendo Apocalipse com responsabilidade: testemunho e adoração incivil: seguindo o Cordeiro rumo à nova criação. Rio de Janeiro, Thomas Nelson Brasil, 2022, pg. 15.

[2] HALE, Broadus David. Introdução ao Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1983, pg. 432

 

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