Rio de Janeiro, 18 de outubro de 2026.
Série de Mensagens
– Auditoria da Alma
Tema da Mensagem
– Como viver sabendo que a vida é breve?
Texto Base
– Eclesiastes 3:1-15
Existe
uma contradição interessante na maneira como vivemos. Embora saibamos que a
vida é breve, frequentemente nos comportamos como se tivéssemos todo o tempo do
mundo. Adiamos conversas importantes, deixamos para depois os pedidos de
perdão, negligenciamos relacionamentos, sacrificamos momentos com a família e
adiamos sonhos que poderiam ser realizados hoje. Vivemos como se o tempo fosse
um recurso inesgotável, algo que sempre estará disponível para nós. Entretanto,
basta uma notícia inesperada, uma enfermidade, uma perda ou uma mudança
repentina para percebermos como somos frágeis e como temos pouco controle sobre
aquilo que imaginávamos dominar.
Talvez
uma das maiores ilusões da existência humana seja acreditar que temos controle
sobre o tempo. Organizamos agendas, estabelecemos metas, fazemos planos,
construímos projetos e tentamos antecipar o futuro. E tudo isso tem seu valor.
A sabedoria não consiste em viver sem planejamento, mas em reconhecer que
nossos planos não nos tornam senhores da vida. Podemos organizar nossos dias,
mas não conseguimos controlar tudo o que acontecerá neles. Podemos planejar o
futuro, mas não podemos garantir que ele acontecerá exatamente como imaginamos.
Podemos desejar determinadas estações, mas não temos o poder de impedir que
outras cheguem.
É
justamente nesse contexto que encontramos uma das passagens mais conhecidas de
Eclesiastes. O Pregador afirma: “Tudo tem
o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”
(Eclesiastes 3.1). A partir desse versículo, ele apresenta uma sequência de
experiências que fazem parte da existência humana: nascer e morrer, plantar e
arrancar o que se plantou, matar e curar, derrubar e edificar, chorar e rir,
prantear e dançar, espalhar pedras e ajuntá-las, abraçar e afastar-se de
abraçar, procurar e perder, guardar e deitar fora, rasgar e coser, estar calado
e falar, amar e aborrecer, guerrear e fazer paz.
O
Pregador parece colocar toda a experiência humana diante dos nossos olhos. Ele
fala dos começos e dos fins, das alegrias e das tristezas, dos encontros e das
despedidas, das construções e das perdas. Sua intenção não é afirmar que todas
essas experiências são moralmente equivalentes, nem que devemos aceitar
passivamente tudo o que acontece. A violência, a injustiça e a maldade
continuam sendo realidades que precisam ser confrontadas. O texto, porém,
reconhece que a existência humana é marcada por acontecimentos e circunstâncias
que não conseguimos controlar completamente.
A vida não é uma linha reta de acontecimentos
agradáveis; é uma jornada atravessada por diferentes estações. Existem
momentos em que tudo parece florescer. Os projetos avançam, os relacionamentos
prosperam, a saúde permite novos planos e o coração encontra razões para
celebrar. Em outros momentos, experimentamos perdas, frustrações, enfermidades,
despedidas e incertezas. Há períodos em que conseguimos compreender o que Deus
está fazendo, mas há outros em que tudo parece confuso. Existem dias em que
nossa fé é acompanhada por uma profunda sensação de paz e outros em que
precisamos continuar caminhando mesmo sem conseguir enxergar claramente o próximo
passo.
O
problema é que frequentemente queremos viver apenas determinadas estações.
Queremos o tempo de rir, mas não queremos o tempo de chorar. Queremos o tempo
de construir, mas não queremos o tempo de derrubar. Queremos o tempo de
receber, mas temos dificuldade de enfrentar o tempo de perder. Desejamos os
começos, mas resistimos aos encerramentos. Gostamos das portas abertas, mas
sofremos quando precisamos aceitar que algumas portas se fecharam.
Entretanto,
a maturidade exige que reconheçamos que a vida não será formada exclusivamente
pelas experiências que escolheríamos. Algumas mudanças serão desejadas; outras
serão inesperadas. Algumas despedidas acontecerão depois de longas conversas;
outras chegarão sem que estejamos preparados. Algumas oportunidades aparecerão
quando estivermos esperando por elas; outras passarão sem que possamos
recuperá-las.
Por
isso, a primeira grande lição que podemos extrair deste texto para nossas vidas
é que precisamos
aprender a reconhecer a estação em que estamos vivendo. Às vezes, insistimos em viver como se
ainda estivéssemos em uma estação que já terminou. Continuamos tentando
recuperar aquilo que não existe mais, insistimos em relacionamentos que
precisam ser transformados ou encerrados, permanecemos presos a uma fase da
vida que não pode ser recuperada. Em outras ocasiões, queremos antecipar aquilo
para o qual ainda não estamos preparados. Desejamos colher antes de plantar,
construir antes de estabelecer os fundamentos e experimentar resultados antes
de atravessar o processo.
Há
sofrimento em não reconhecer o tempo das coisas. Uma pessoa pode passar tanto
tempo lamentando o que perdeu que deixa de perceber as possibilidades que ainda
existem. Outra pode ficar tão preocupada com o futuro que não consegue
desfrutar as dádivas do presente. Uma terceira pode viver tentando recuperar os
dias de ontem, sem perceber que Deus também está presente nos dias de hoje.
Isso
não significa que devemos esquecer o passado ou abandonar os sonhos para o
futuro. Significa que precisamos aprender a viver o presente com sabedoria,
reconhecendo que cada estação possui desafios, responsabilidades e
oportunidades próprios.
Talvez
você esteja vivendo um tempo de construção, no qual precisa trabalhar, plantar,
aprender e perseverar. Talvez esteja vivendo um tempo de espera, no qual
precisa desenvolver paciência e confiar sem ter todas as respostas. Talvez
esteja atravessando um tempo de perdas, no qual precisa chorar, receber cuidado
e permitir que outras pessoas caminhem ao seu lado. Talvez esteja
experimentando um tempo de alegria e precise aprender a desfrutar aquilo que
recebeu sem viver dominado pelo medo de perder.
A
pergunta, portanto, não é apenas se estamos vivendo uma estação agradável. A
pergunta é: como
estamos vivendo a estação que nos foi dada? Depois de
apresentar os diferentes tempos da existência, o Pregador faz uma afirmação que
nos conduz a uma reflexão ainda mais profunda: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo” (Eclesiastes 3.11).
Essa declaração não significa que todas as experiências humanas sejam bonitas
ou que todo sofrimento deva ser considerado bom. A Bíblia não nos ensina a
romantizar a dor, justificar a injustiça ou tratar a tragédia como algo
desejável. O próprio livro de Eclesiastes reconhece a existência da opressão,
das lágrimas e das situações profundamente perturbadoras.
O
que o texto afirma é que Deus não está limitado à nossa percepção imediata das
coisas. Nós enxergamos fragmentos; Deus conhece a totalidade. Nós
experimentamos o presente; Deus não está preso às nossas limitações temporais.
Muitas vezes, julgamos uma história enquanto ainda estamos vivendo os capítulos
mais difíceis dela.
Pense
em alguém que observa uma obra em construção. Se olhar apenas para o terreno
escavado, para a poeira, para os materiais espalhados e para as paredes
incompletas, talvez tenha dificuldade de perceber a beleza daquilo que está
sendo construído. A obra ainda não terminou. É necessário tempo, trabalho,
planejamento e paciência para que o resultado se torne visível.
Naturalmente,
essa ilustração tem seus limites, porque a vida real não é uma construção cujo
resultado conseguimos antecipar. Nem sempre entenderemos por que determinadas
coisas aconteceram. Nem sempre veremos a reparação de todas as injustiças
durante nossa existência. Nem toda perda será compensada nesta vida da maneira
que desejamos. A fé cristã não promete que compreenderemos todos os
acontecimentos, mas nos convida a confiar em Deus mesmo quando nossa
compreensão é limitada.
Aqui
encontramos uma verdade fundamental: não compreender tudo o que Deus está fazendo não
significa que Deus tenha deixado de ser soberano. Essa afirmação, porém, exige cuidado
pastoral. Não devemos utilizá-la para oferecer respostas fáceis a quem está
sofrendo. Diante de uma família enlutada, de alguém que recebeu um diagnóstico
difícil ou de uma pessoa que enfrenta uma crise profunda, nem sempre precisamos
explicar os acontecimentos. Muitas vezes, precisamos chorar com os que choram,
ouvir com atenção, oferecer presença e caminhar ao lado de quem sofre. A
soberania de Deus não é uma licença para sermos insensíveis; é um fundamento
para permanecermos firmes mesmo quando não encontramos explicações suficientes.
O
próprio Eclesiastes reconhece que Deus colocou a eternidade no coração humano,
embora o ser humano não consiga compreender inteiramente a obra divina, do
princípio ao fim. Essa é uma das declarações mais profundas do capítulo 3.
Existe dentro de nós uma inquietação que ultrapassa as necessidades imediatas.
Não queremos apenas comer, trabalhar, descansar e sobreviver. Queremos saber
por que estamos aqui. Desejamos compreender o significado das coisas. Queremos
entender por que nascemos, por que sofremos, por que envelhecemos e por que
precisamos morrer.
Existe
em nós uma espécie de saudade da eternidade. Percebemos que a vida é preciosa
demais para ser tratada como algo banal, mas breve demais para que consigamos
realizar tudo aquilo que desejamos. Queremos preservar os momentos felizes, mas
eles passam. Queremos manter perto de nós as pessoas que amamos, mas sabemos
que os relacionamentos humanos são frágeis. Queremos encontrar respostas para
nossas perguntas, mas algumas delas permanecem abertas.
Essa
tensão faz parte da experiência humana. Temos consciência da eternidade, mas
vivemos dentro do tempo. Desejamos compreender o todo, mas enxergamos apenas
uma parte. Queremos controlar o amanhã, mas precisamos tomar decisões hoje sem
saber exatamente o que o futuro nos reserva.
Talvez
seja justamente por isso que precisamos aprender a viver pela fé. A fé não
significa que deixamos de fazer perguntas, nem que passamos a compreender todas
as coisas. Significa que reconhecemos nossos limites e confiamos naquele que é
maior do que eles.
A
fé cristã não elimina o mistério da existência. Ela nos ensina a viver diante
de Deus mesmo quando o mistério permanece. O Pregador continua sua reflexão e
afirma que o ser humano não consegue descobrir inteiramente a obra que Deus
faz. Essa constatação deveria produzir humildade em nós. Muitas vezes, agimos
como se tivéssemos condições de avaliar definitivamente cada acontecimento. Se
algo bom acontece, concluímos rapidamente que tudo está bem. Se algo ruim
acontece, imaginamos que tudo deu errado. Se uma porta se abre, celebramos; se
uma porta se fecha, desesperamo-nos. Mas nossa perspectiva é limitada.
Existem
decisões cujas consequências só compreenderemos muito tempo depois. Existem
experiências que nos obrigam a rever prioridades. Existem perdas que revelam
fragilidades que não reconhecíamos. Existem mudanças que interrompem nossos
planos e nos levam a reconsiderar o caminho que estamos percorrendo.
Não
devemos concluir que toda dificuldade foi enviada por Deus para nos ensinar uma
lição específica, pois muitas vezes não temos condições de conhecer a causa de
determinado sofrimento. Mas podemos afirmar que nenhuma circunstância está além
da capacidade de Deus de nos sustentar, e que podemos buscar sabedoria,
amadurecimento e esperança mesmo em situações que jamais teríamos escolhido.
Por
isso, uma auditoria da alma precisa incluir uma pergunta desconfortável: será que estamos tentando
controlar aquilo que deveríamos aprender a confiar nas mãos de Deus? Talvez
nossa ansiedade revele justamente essa dificuldade. Queremos antecipar todos os
problemas, prever todas as possibilidades, evitar todas as perdas e garantir
que nada saia do nosso planejamento. É claro que devemos agir com
responsabilidade. Precisamos cuidar da saúde, administrar os recursos, proteger
nossos relacionamentos e tomar decisões prudentes. Mas existe uma diferença
entre responsabilidade e ilusão de controle.
A
responsabilidade nos leva a fazer o que está ao nosso alcance. A ilusão de
controle nos faz acreditar que precisamos garantir todos os resultados. A
responsabilidade permite que trabalhemos e depois descansemos. A ilusão de
controle nos mantém trabalhando mesmo quando já não temos forças. A
responsabilidade reconhece que precisamos planejar. A ilusão de controle
acredita que um planejamento perfeito pode impedir todas as surpresas. A
responsabilidade é compatível com a fé. A ilusão de controle frequentemente
nasce da dificuldade de confiar.
Talvez
precisemos aprender novamente a fazer nossa parte sem imaginar que podemos
fazer todas as partes. Precisamos trabalhar, mas também descansar. Precisamos
planejar, mas também aceitar que os planos podem mudar. Precisamos cuidar das
pessoas que amamos, mas reconhecer que não podemos viver a vida delas por elas.
Precisamos servir a Deus com dedicação, mas lembrar que o resultado final não
depende exclusivamente de nossos esforços.
Essa
é uma das grandes libertações que a fé nos oferece: não precisamos ser
soberanos para viver com responsabilidade; precisamos aprender a confiar no
Deus que é soberano. Depois
de refletir sobre o tempo e os limites humanos, Eclesiastes 3 nos conduz a uma
dimensão prática da existência. O versículo 12 afirma que não há coisa melhor
para o ser humano do que alegrar-se e fazer o bem durante a vida. O versículo
13 acrescenta que comer, beber e desfrutar o resultado do próprio trabalho são
dons de Deus.
É
interessante perceber que, depois de falar sobre a brevidade da vida e a
impossibilidade de compreender todas as coisas, o Pregador não conclui que
devemos desistir de viver. Pelo contrário, ele nos convida a reconhecer a
bondade presente nos dons cotidianos.
Talvez
essa seja uma das maiores dificuldades da vida contemporânea: aprender a
desfrutar o presente sem transformá-lo em um ídolo e sem viver permanentemente
preocupado com o futuro. Podemos passar tantos anos esperando uma condição
ideal para sermos felizes que deixamos de perceber as dádivas que já recebemos.
Esperamos resolver todos os problemas antes de descansar. Esperamos alcançar
determinada estabilidade antes de desfrutar a família. Esperamos que todas as
circunstâncias estejam favoráveis antes de agradecer. Esperamos que a vida se
torne perfeita para finalmente reconhecermos que ela é preciosa.
Mas
a vida nunca será completamente controlável. Sempre haverá alguma preocupação,
algum desafio, alguma responsabilidade ou alguma incerteza. Se esperarmos que
todas as circunstâncias sejam perfeitas para desfrutarmos a vida, provavelmente
passaremos a existência inteira esperando.
Isso
não significa ignorar os problemas ou fingir que tudo está bem. Significa
reconhecer que a dor e a alegria podem coexistir, que a incerteza não elimina
toda possibilidade de gratidão e que podemos encontrar motivos para agradecer
mesmo quando ainda existem questões sem solução.
Talvez
hoje você não tenha todas as respostas, mas possa agradecer por uma pessoa que
caminha ao seu lado. Talvez ainda esteja enfrentando dificuldades financeiras,
mas possa reconhecer a importância de uma refeição compartilhada com a família.
Talvez esteja atravessando uma estação de incerteza, mas possa desfrutar de uma
conversa, de um momento de oração, de um gesto de carinho ou da oportunidade de
servir alguém.
A
gratidão não nega a realidade da dor. Ela nos impede de permitir que a dor seja
a única realidade que conseguimos enxergar. A sabedoria consiste em não desperdiçar o
presente enquanto tentamos controlar o futuro.
Isso
é especialmente importante quando pensamos na brevidade da vida. Quantas vezes
estamos fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes? Sentamos à mesa,
mas continuamos preocupados com o trabalho. Estamos com nossos filhos, mas
nossa atenção permanece no celular. Conversamos com alguém, mas nossa mente
está ocupada com os compromissos do dia seguinte. Chegamos ao domingo pensando
na segunda-feira e atravessamos a semana inteira esperando que ela termine.
Quando
percebemos, o tempo passou. Os filhos cresceram. Os pais envelheceram. Os
amigos seguiram caminhos diferentes. Algumas oportunidades desapareceram.
Algumas conversas nunca aconteceram. Por isso, viver com sabedoria significa
reconhecer que o presente não é apenas um intervalo entre o passado e o futuro.
O presente é o lugar em que nossas escolhas acontecem, nossos relacionamentos
são cultivados e nossa fidelidade a Deus se torna concreta. É hoje que podemos
amar. É hoje que podemos pedir perdão. É hoje que podemos recomeçar. É hoje que
podemos servir. É hoje que podemos desfrutar das dádivas de Deus.
Eclesiastes
não nos ensina a viver de maneira irresponsável, como se o amanhã não
existisse. Ele nos ensina a viver com consciência de que o amanhã não nos
pertence inteiramente. Existe ainda uma última afirmação importante no texto. O
Pregador declara que aquilo que Deus faz durará eternamente e que nada pode ser
acrescentado ou retirado de sua obra. O propósito é que os seres humanos
reconheçam sua dependência de Deus e vivam diante dele com reverência.
Aqui
encontramos o fundamento teológico da mensagem. A vida é breve, mas Deus não
está limitado à brevidade humana. Nossa compreensão é parcial, mas a sabedoria
divina não é. Nossos planos mudam, mas Deus não perde sua soberania. Nós não
controlamos as estações, mas podemos atravessá-las confiando naquele que
permanece fiel.
Isso
não significa que Deus nos prometeu uma existência sem perdas, crises ou
lágrimas. Significa que nossas perdas não precisam ser a palavra final sobre
nossa existência. A fé cristã nos convida a enxergar a vida a partir de uma
perspectiva maior do que o momento presente.
Essa
perspectiva encontra sua expressão mais profunda em Jesus Cristo. No evangelho,
Deus não permanece distante da fragilidade humana. Em Cristo, ele entra na
nossa história. Jesus experimenta o cansaço, a dor, a rejeição, a perda e a
morte. Ele conhece a experiência humana não apenas de fora, mas por meio de sua
encarnação.
Na
cruz, encontramos a seriedade do sofrimento humano e a profundidade do amor de
Deus. Na ressurreição, encontramos a esperança de que a morte não terá a
palavra final para aqueles que pertencem a Cristo. Isso transforma a maneira
como compreendemos o tempo. Para o cristão, a brevidade da vida não precisa
produzir desespero, porque nossa esperança não está limitada aos dias que
passamos debaixo do sol. Nossa vida presente é preciosa, mas não é tudo o que
existe. Em Cristo, a morte foi confrontada pela promessa da ressurreição, e o
futuro pode ser vivido com esperança.
Por
isso, podemos chorar sem perder toda a esperança. Podemos sofrer sem concluir
que Deus nos abandonou. Podemos reconhecer nossas limitações sem acreditar que
nossa existência perdeu o sentido. Podemos enfrentar mudanças sem imaginar que
tudo está fora das mãos do Senhor.
A
esperança cristã não nos ensina que todas as estações serão agradáveis. Ela nos
ensina que nenhuma estação precisa ser enfrentada sem Deus. Talvez você esteja
vivendo um tempo de alegria e precise aprender a agradecer. Talvez esteja
vivendo um tempo de espera e precise aprender a confiar. Talvez esteja vivendo
um tempo de luto e precise permitir-se chorar. Talvez esteja vivendo um tempo
de mudanças e precise de coragem para seguir adiante. Talvez esteja enfrentando
uma estação que não compreende e para a qual não encontra explicações.
Não
quero lhe oferecer uma resposta fácil para situações complexas. Nem sempre
sabemos por que determinadas coisas acontecem. Mas podemos nos lembrar de que
nossa incapacidade de compreender tudo não significa que precisamos abandonar a
fé. Podemos continuar caminhando, buscando ajuda, cuidando uns dos outros e
confiando na graça de Deus para cada dia.
A
pergunta desta terceira mensagem da nossa série Auditoria da Alma não é simplesmente
se estamos felizes com a estação que atravessamos. A pergunta é: como estamos
vivendo dentro dela? Será que estamos desperdiçando o presente porque não
conseguimos superar o passado? Será que estamos perdendo a alegria de hoje
porque temos medo do amanhã? Será que estamos tentando controlar pessoas,
situações e resultados que não estão inteiramente sob nossa responsabilidade?
Será que estamos tão preocupados em construir o futuro que nos esquecemos de
agradecer pelas dádivas do presente?
Talvez
a revisão de vida que precisamos fazer hoje comece com uma simples mudança de
perspectiva. Em vez de perguntar apenas “quando esta estação vai terminar? ”,
talvez possamos perguntar: “Senhor, como posso viver com fidelidade enquanto
ela durar? ”. Em vez de perguntar somente “por que não tenho controle sobre
esta situação?”, talvez possamos perguntar: “Senhor, o que está ao meu alcance
fazer e o que preciso entregar em tuas mãos?”. Em vez de esperar que todas as
circunstâncias se tornem favoráveis para agradecer, talvez possamos aprender a
reconhecer os pequenos presentes que Deus coloca diante de nós a cada dia.
Porque
a vida é breve. O tempo passa. As estações mudam. Nem tudo acontecerá como
planejamos. Nem todas as perguntas encontrarão respostas imediatas. Mas podemos
viver cada dia com responsabilidade, gratidão, humildade e fé.
Maturidade espiritual não é conseguir controlar
todas as circunstâncias, mas aprender a confiar em Deus enquanto atravessamos
aquelas que não podemos controlar. Talvez você não possa
mudar o passado, mas pode aprender com ele. Talvez não consiga determinar tudo
o que acontecerá amanhã, mas pode viver com fidelidade hoje. Talvez não consiga
evitar todas as perdas, mas pode amar profundamente enquanto tem a oportunidade
de amar. Talvez não consiga compreender todos os caminhos de Deus, mas pode
continuar caminhando com ele.
E
talvez seja isso que precisamos aprender nesta etapa da nossa Auditoria da
Alma: não temos o controle do tempo, mas somos responsáveis pela maneira como
vivemos o tempo que recebemos. Por isso, antes de encerrar, quero convidá-lo a
refletir sobre três perguntas. Primeira: em que estação da vida você está?
Você consegue reconhecer o momento que está atravessando ou continua tentando
viver como se estivesse em outra fase? Segunda: o que você está tentando controlar que
precisa entregar a Deus?
Talvez sejam os resultados do trabalho, o futuro dos filhos, uma decisão
difícil, uma situação familiar ou uma circunstância que não depende
exclusivamente de você. Terceira: o que Deus colocou em suas mãos hoje que você não deveria
continuar adiando? Pode ser uma conversa, um pedido de perdão,
um gesto de amor, uma oportunidade de servir, um momento com a família ou
simplesmente a decisão de parar e agradecer.
A
vida é breve demais para ser desperdiçada tentando controlar tudo. É preciosa
demais para ser vivida permanentemente distraídos. E é misteriosa demais para
imaginarmos que conseguiremos compreender cada detalhe antes de confiar em
Deus. Talvez a maior sabedoria não esteja em descobrir como prolongar
indefinidamente nossas estações, mas em aprender a viver cada uma delas com
fidelidade ao Senhor.
Quando
chegar o tempo de plantar, plantemos. Quando chegar o tempo de construir,
construamos. Quando chegar o tempo de chorar, não tenhamos vergonha das
lágrimas. Quando chegar o tempo de celebrar, celebremos com gratidão. Quando
chegar o tempo de esperar, aprendamos a confiar. E, em todas as estações,
lembremo-nos de que nossa vida está diante de Deus.
Não podemos controlar todas as estações da vida, mas
podemos escolher caminhar com Deus em cada uma delas. Que
nossa oração seja: “Senhor, ensina-nos a viver com sabedoria. Ajuda-nos a
reconhecer a brevidade da vida, a aceitar nossos limites, a desfrutar das tuas
dádivas e a confiar em ti quando não compreendermos os caminhos que estamos
atravessando. Não permitas que a preocupação com o amanhã nos roube a
fidelidade de hoje. Ensina-nos a amar enquanto temos tempo, a servir enquanto
temos oportunidade e a viver cada dia para a tua glória”.
E,
ao concluirmos esta terceira etapa da nossa Auditoria da Alma, precisamos
nos preparar para a pergunta final da série. Se a vida é breve, se as estações
mudam e se tantas coisas estão além do nosso controle, o que realmente
permanece quando tudo termina?
No
próximo domingo, chegaremos ao último capítulo de Eclesiastes e à grande
conclusão do Pregador: a vida precisa ser compreendida à luz da eternidade, da
responsabilidade humana e do nosso relacionamento com Deus. Porque, no final, a
pergunta não será apenas quanto tempo vivemos, mas como vivemos diante daquele
que nos deu a vida.
Eclesiastes
nos ensina a reconhecer nossos limites. O evangelho nos convida a colocar nossa
esperança em Cristo. E a sabedoria começa quando deixamos de viver como se
fôssemos donos do tempo e aprendemos a viver como pessoas que receberam de Deus
o precioso presente de cada dia. A vida é breve. As estações passam. Deus permanece.
Portanto, viva com sabedoria, desfrute com gratidão e confie no Senhor em cada
estação.

