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quarta-feira, 26 de abril de 2023

Ações de graças e oração pelos cristãos de Roma - Romanos 1.8-13

 


Rio de Janeiro, 26 de abril de 2023.

Série de Mensagens – O mais puro evangelho

Tema da Mensagem – Ações de graças e oração pelos cristãos de Roma.

Texto Base – Romanos 1.8-13

“Em primeiro lugar, por meio de Jesus Cristo, dou graças ao meu Deus por todos vocês, porque a fé que vocês têm é proclamada no mundo inteiro.” (verso 8)

·         “Em primeiro lugar...” – Essa expressão usada pelo apóstolo parece não quer caracterizar uma sistematização de pensamento por uma espécie de enumeração, acredito que seja apenas uma forma literária de chamar atenção de seus leitores como uma espécie de iniciação de sua didática.

·         “...por meio de Jesus Cristo...” – O Senhor Jesus não somente aquele que concede a graça da salvação, mas também é aquele que é o mediador, o intercessor entre Deus e os homens.

·         “...Dou graças ao meu Deus por todos vocês...” – O apóstolo Paulo parece se utilizar de uma linguagem mais piedosa, muito similar a dos salmistas nesta expressão. Todavia, vale destacar o fato de evidenciar o seu amor e gratidão ao Deus Pai de Cristo Jesus que o resgatou do reino das trevas e o levou para o reino do Filho do seu amor. O apóstolo como costumeiramente o faz dar graças ao Senhor pela vida das igrejas, com a exceção dos gálatas que não aparece essa mesma expressão e nem outra similar, podendo ser efeito da percepção do apóstolo que os crentes da galácia estavam se desviando do evangelho da graça e se identificando com uma espécie de evangelho legalista;

·         “...porque a fé que vocês têm é proclamada no mundo inteiro.” – John Stott comenta: “Admitindo-se que haja aqui uma certa hipérbole, até legítima, ainda assim é verdade que, onde quer que a igreja chegasse, chegava também a notícia de que havia cristãos na capital. E, embora Paulo não tivesse sido o responsável por anunciar-lhes o evangelho, isso não o impedia de dar graças porque Roma havia sido evangelizada.”[1]

“Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como nunca deixo de fazer menção de vocês em todas minhas orações, pedindo que, em algum momento, pela vontade de Deus, surja uma oportunidade de visitá-los.” (versos 9 e 10)

·         “Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho...” – Paulo usa a expressão “sirvo em meu espírito” para assegurar que servia ao Senhor com toda a inteireza e a sinceridade mais profunda de seu ser. Não acredito que a palavra “espírito” esteja ligada ao Espírito Santo, mesmo que a palavra que o apóstolo use a mesma palavra no original: “pneuma”. Todavia, pelo contexto do texto é mais provável que a tradução esteja ligada a questão da sinceridade, inteireza. Paulo sempre deixava claro que sua mensagem era do “evangelho de seu Filho” (evangelho de Jesus Cristo). Uma vez que a mensagem do evangelho já naqueles dias era distorcida. Nos versos anteriores o apóstolo Paulo já anunciava o duplo cumprimento escatológico deste evangelho: a restauração de Israel e a salvação dos gentios.

·         “...é minha testemunha de como nunca deixo de fazer menção de vocês em todas as minhas orações...” – O apóstolo evoca o Senhor como sua testemunha, mas uma vez acredito querendo evidenciar sua sinceridade, querendo ratificar a verdade de sua fala. Ele sempre levava em oração ao Senhor o nome dos irmãos da igreja de Roma, mesmo nunca os tendo conhecidos. É evidente que devemos orar por todas as pessoas, inclusive aqueles a quem não conhecemos pessoalmente, mas podemos nos tornar intercessores constantes pela vida delas.

·         “...pedindo que, em algum momento, pela vontade de Deus, surja uma oportunidade para visitá-los.” – Agora o velho apóstolo revela o seu pedido, qual tem sido o conteúdo de sua oração a Deus. O apóstolo não está determinado ou querendo colocar o Senhor contra parede para que Ele, o Altíssimo, possa fazer o que Paulo deseja, muito pelo contrário, ele sabe que é servo e precisa ser submisso a vontade do Senhor, por isso mesmo expressa “pela vontade de Deus”. O pedido de Paulo ao Senhor não envolve benefícios pessoais, mas sim o desejo da edificação do Reino. Muito provavelmente os irmãos em Roma estavam sentiam-se desmerecidos pelo apóstolo nunca os ter visitado e Paulo queria desfazer essa impressão ou até mesmo sentimento daqueles irmãos. Quem dera cada um de nós pudéssemos ter em nossos corações o desejo de abrir mão de nossos interesses pelo bem maior do nosso próximo para edificação do Reino de Deus.

·         Diz Hernandes Dias Lopes em seu comentário: “Mesmo não conhecendo pessoalmente a igreja de Roma, Paulo ora pelos crentes sem cessar, chamando o próprio Deus por testemunha. Em todas as suas orações havia sempre um propósito firme e incansável de rogar a Deus uma oportunidade para visitar a igreja. Paulo acredita na eficácia da oração. Ele não apenas ensina sobre a importância da oração, mas também ora. A teologia da oração e a prática da oração andam de mão dadas na vida do apóstolo. A oração é o meio ordenado por Deus para conceder bênçãos ao seu povo. Citando Robert Haldane, Geoffrey Wilson registra: “Orar sem trabalhar é zombar de Deus; trabalhar sem orar é roubar de Deus sua glória.”[2]

“Porque desejo muito vê-los, a fim de repartir com vocês algum dom espiritual, para que vocês sejam fortalecidos, isto é, para que nos consolemos uns aos outros por meio da fé mútua: a de vocês e a minha.” (versos 11 e 12)

·         Dougla Moo aponta em seu comentário três razões pelas quais Paulo deseja ir a Roma: 1) a primeira expressa nesse verso de número onze. Paulo deseja compartilhar um dom espiritual; 2) “para ter uma colheita” (verso 13); 3) “para pregar o evangelho” (verso 15);

·         “...algum dom espiritual” – Ao explicar sobre o significado dessa expressão diz John Stott: “À primeira vista, parece natural interpretar o referido dom espiritual como sendo um dos dons (charismata) relacionados por Paulo em 1Coríntios 12 e, depois, também em Romanos 12 e Efésios 4. Mas, pelo visto, há uma objeção falta a isso, uma vez que nessas outras passagens os dons são concedidos pela soberana decisão de Deus, de Cristo ou do Espírito. Portanto o apóstolo dificilmente poderia se declarar capaz de “compartilhar” um charisma. Assim ele pode estar usando a Palavra num sentido mais geral.Talvez esteja se referindo ao seu próprio ensino ou exortação, que ele espera passar a elas quando chegar, se bem, que haja nessa sua afirmação “uma indefinição proposital”, talvez porque a essa altura dos acontecimentos ele nem sabe quais serão as suas necessidades espirituais básicas.”[3]

·         “...isto é, para que nos consolemos uns aos outros por meio da fé mútua: a de vocês e a minha.” – A humildade de Paulo é demonstrada neste versículo onde sendo quem ele é se coloca na posição de aprendiz mesmo que o aprendizado venha de neófitos na fé, pois Paulo sabe que é o Espírito que gera capacitação através dos dons para que a sua igreja seja edificada. João Calvino comenta sobre esta questão: “Observe a que grau de modéstia seu piedoso coração se submeteu, de modo que não desdenha de buscar confirmação da parte de inexperientes neófitos. Ele sabe o que diz, pois ninguém é tão destituído de dons, na Igreja de Cristo, que seja incapaz de contribuir com algo para nosso benefício. Má vontade e orgulho, contudo nos impedem de extrair tal fruto uns dos outros.”[4]

“Quero que vocês saibam, irmãos, que muitas vezes me propus a ir visitá-los – no que tenho sido, até agora, impedido -, para conseguir algum fruto igualmente entre vocês, assim também como tenho conseguido entre outros gentios.” (verso 13)

·         “Quero que vocês saibam...” – É como se o apóstolo Paulo estivesse dizendo: “quero que estejam atentos ao que desejo falar-lhes!”

·         “...irmãos...” – A palavra irmãos é usada para denotar não o sentido biológico, mas sim o sentido de fraternidade espiritual, ou seja, todo aquele que está em Cristo é filho de Deus, sendo assim parte da grande família de Deus.

·         “...que muitas vezes me propus ir visitá-los – no que tenho sido, até agora, impedido...” – Como já mencionei antes os irmãos em Roma estavam ansiosos para saber qual era o motivo do apóstolo aos gentios ainda não ter ido pessoalmente visitá-los, afinal de contas, a igreja de Roma estava no coração, era capital do mundo gentílico. Paulo justifica-se dizendo que muitas vezes planejou estar com os irmãos, todavia foi impedido pelo que nos dá a entender pelo próprio Deus.

·         “...para conseguir algum fruto igualmente entre vocês, assim também como tenho conseguido entre outros gentios.” – Comenta Hernandes sobre esta questão: “Por “fruto” entende-se, sem dúvida, a recompensa esperada de suas atividades apostólicas, a conquista de novos convertidos e o fortalecimento da fé e da obediência daqueles que já criam. Paulo não quer apenas semear, mas também colher. Ele não deseja apenas ter o pesado labor do investimento, mas anseia também obter a deleitosa recompensa desses investimentos, e não apenas entre os crentes de Roma, mas igualmente entre os demais gentios.”[5]



[1] STOTT, John. A mensagem de Romanos. São Paulo: ABU, 2007, pg.58.

[2] LOPES, Hernandes Dias. Romanos: o evangelho segundo Paulo. São Paulo: Hagnos, 2010, pg. 49.

[3] STOTT, John. A mensagem de Romanos. São Paulo: ABU, 2007, pg.59.

[4] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, pg. 72.

[5] LOPES, Hernandes Dias. Romanos: o evangelho segundo Paulo. São Paulo: Hagnos, 2010, pg. 50.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

As implicações do evangelho de Jesus - Romanos 1.5-7

 

Rio de Janeiro, 19 de abril de 2023.

Série de Mensagens – O mais puro evangelho

Tema da Mensagem – As implicações do evangelho de Jesus.

Texto Base – Romanos 1.5-7

Introdução:

  • No primeiro versículo do capítulo um o apóstolo Paulo se apresenta a igreja de Roma e mostra suas credenciais apostólicas;
  • Os versos de dois a quatro o apóstolo Paulo faz um pequeno resumo sobre qual era as verdadeiras boas novas anunciadas por ele;
  • Agora dos versos cinco ao sete Paulo faz umas descrição das implicações deste evangelho que ele pregava na vida daquele que crê;

“Por meio dele viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para obediência da fé, entre todos os gentios.” (verso 5)

  • “...graça e apostolado...” – Os estudiosos apontam para duas possibilidades interpretativas. 1) A primeira é que o apóstolo Paulo está falando de duas coisas distintas que ele recebeu do Senhor, a graça que foi o seu presente imerecido, ou seja, a salvação e, a segunda, a vocação, o apostolado aos gentios. 2) para alguns estudiosos o apóstolo está apenas relatando que recebeu a vocação pela graça, ou seja, ele não era merecedor de ter sido chamado pelo Senhor para exercer tal vocação. Particularmente, acredito que a segunda possibilidade seja a mais coerente com o pensamento que o apóstolo está desenvolvendo no contexto do texto;
  • “... para obediência da fé...” – Essa expressão parece o motivo de muitos pensamentos diferentes entre os estudiosos. Todavia, não consigo acreditar de forma alguma que o apóstolo está se contradizendo em relação à doutrina da justificação pela fé. Alguns estudiosos acreditam que Paulo está usando uma figura de linguagem chamada “hindíadis”, que nada mais é do que retórica, são dois substantivos jungidos que são impossíveis de serem separados, os dois estão ligados na essência do seu significado um ao outro. O exegeta bíblico Douglas J. Moo faz o seguinte o comentário: “À luz disso, entendemos as palavras “obediência”e fé “como se interpretando mutuamente: a obediência sempre envolve a fé, e a fé sempre envolve obediência. No entanto, isso não significa que os dois termos são equivalentes ou que seus campos semânticos se sobreponham, como muitos intérpretes recentes acreditam, sublinhando a natureza holística das relevantes palavras hebraica (emûnâ) e grega (pistis). Paulo mantém uma distinção semântica entre fé, de um lado, e obediência ou “obras”, de outro. Fé e obediência não devem ser consideradas equivalentes, compartimentalizadas ou classificadas como estágios separados da experiência cristã. Paulo chamava homens e mulheres a uma fé sempre inseparável da obediência, pois o salvador em que cremos não é nada menos do que nosso Senhor; e Paulo os chamava a uma obediência que nunca poderia ser separada da fé, pois podemos obedecer a Jesus como Senhor apenas quando nos entregamos a ele em fé. Como Karl Barth o expressa: “A fé não é obediência, mas, assim como a obediência não é obediência sem fé, a fé não fé sem obediência. Elas são inseparáveis, do mesmo modo que o raio e o trovão o são em uma tempestade.” Dessa perspectiva, a expressão captura a dimensão completa da tarefa apostólica de Paulo, uma tarefa que não se limitava a evangelização inicial, mas também incluía a edificação e o firme estabelecimento de igrejas.”[1]”Apologética: Tudo pela graça, de Charles Haddon Spurgeon. Nesta obra (1894), Spurgeon ilustra o conceito de obediência da fé ao observar que justificação sem santificação não é salvação verdadeira. “Seria o mesmo que chamar um leproso de limpo e deixá-lo morrer dessa doença. Seira o mesmo que perdoar uma rebelião e deixar que o rebelde continue sendo inimigo do rei [...] Isso poderia, até mesmo, conter a corrente por um tempo, mas deixaria aberta a fonte da corrupção, a qual, cedo ou tarde, rebentaria com poder redobrado.”[2]
  • “... por amor do seu nome...” – O apóstolo Paulo aqui expressa que o seu desejo não é uma glória pessoal, pois não é pelo seu nome, mas sim para que o nome de Jesus seja reconhecido e adorado entre as nações.
  • “... entre todos os gentios.”“Ao declarar o propósito de seu apostolado, Paulo expõe outros aspectos do evangelho. Diz que este tem como alvo alcançar todas as nações (ARA, todos os gentios). Isso parece implicar que os cristãos de Roma eram predominantemente gentios, sendo que ele os menciona especificamente. E vocês também estão entre os chamados para pertencerem a Jesus (6). Logo adiante, no entanto, Paulo irá descrever o evangelho como “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego” (1.16). O que ele está afirmando é que o evangelho é para todos; sua extensão é universal. Ele mesmo era um judeu patriota, que amava o seu povo e almejava ardentemente a sua salvação (9.1ss.;10.1). Ao mesmo tempo, fora chamado para ser apóstolo aos gentios. Nós também, se quisermos dedicar-nos à missão mundial, precisamos libertar-nos de todo orgulho, seja de raça, nação, tribo, casta ou classe, e reconhecer que o evangelho de Deus é para todos, sem exceção e sem distinção. Este é um tema de suma importância em Romanos.”[3]

 

“Entre esses se encontram também vocês que foram chamados para pertencerem a Jesus Cristo.” (verso 6)

  • O apóstolo Paulo neste verso especificamente se dirige aos irmãos que estão em Roma e nos dá o possível entendimento de que eles também são gentios quando diz “entre esses se encontram também vocês...”;
  • “... foram chamados para pertencerem a Jesus Cristo.” – O apóstolo Paulo nos evidencia que assim como o seu chamado ao apostolado foi pela graça de Deus, assim também Deus chamou aos romanos para receberem a salvação e pela fé responderam de forma positiva a este chamado.

“A todos os amados de Deus que estão em Roma, chamados para ser santos. Que a graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam com vocês.” (verso 7)

  • “A todos os amados de Deus que estão em Roma...” – O apóstolo Paulo continua a especificar os destinatários da carta. Todavia, vale ressaltar que não há problemas em ele não se referir aos irmãos em Roma usando também a palavra “igreja”, em outras ocasiões ele também não usa a palavra.
  • “A todos os amados de Deus... chamados para ser santos...” – Essas são expressões que o Senhor usa no Antigo Testamento para referir-se a Israel. C.Marvin Pate vai dizer: “Paulo, aplica aos cristãos gentios em Roma três designações veterotestamentárias para Israel: “chamados” (cf. Dt 4.37; 10.15; Is 41.9; 48.12), “amados” (cf. Dt 4.37; 10.15; cf. Tb. Dt 7.8; 23.5) e “santos” (cf. Êx 19.5,6; Lv 19.2; Dt 7.6). Com isso, o apóstolo aos gentios comunica que eles fazem parte do povo de Deus tanto quanto Israel.”[4]
  •  “Que a graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam com vocês.” – Essa é a forma da saudação encontrada na maioria das epístolas escritas por Paulo: Colossenses, 1Tessalonicenses, em 1 e 2Timóteo a expressão ganha o acréscimo da palavra misericórdia. Hendicks destaca em seu comentário: “O que vemos em Romanos etc., é que a forma grega de saudação foi combinada com a forma judaica. O grego diz Chaire! (“Alegria e você!”). O judeu diz Shalom! (“Paz!”). Entretanto, essas duas saudações não só foram unidas por Paulo, mas foram ao mesmo tempo, transformadas numa só saudação distintamente cristã. Observe, a este respeito, que chaire foi transformada em charis (graça).”[5] Hendicksen ainda destaca em seu comentário que a graça de estar em Cristo é que produz a paz como um estado (salvação) e também uma condição interior, uma sensação, sentimento de paz. Essas benesses podemos desfrutar por desfrutarmos de uma tão grande salvação que nos foi proporcionada através do sacrifício de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Conclusão:

  • “Como notamos ao comentar o versículo 4, a importância da cristologia nesse parágrafo introdutório não deve ser ignorada. Paulo compartilha com seus leitores romanos a convicção de que Jesus é o centro do evangelho. Ele é o Messias prometido de Israel (“semente de Davi”), o Filho de Deus, o Senhor. Confessar o evangelho hoje exige nossa subscrição à visão exaltada que Paulo tem de Jesus; não fazer isso é o que produz muitas heresias. Entretanto, a atenção de Paulo, como também vimos, está especialmente na atividade desse Jesus: sua vinda à terra como o Messias; sua exaltação por meio da ressurreição à condição de Senhor de todos; seu poder concedido como Filho de Deus. É o que Jesus fez, não somente quem ele é, que torna o evangelho as “boas-novas”. Mas tenha certeza disto: o que Jesus fez não pode ser separado de quem ele é. Nossa época é uma época sem muito interesse pela teologia. No entanto, a teologia correta – nesse caso, a pessoa de Jesus – é vital para a salvação e conduta cristãs.”[6]
  • Em resumo, aqui se encontram seis verdades fundamentais acerca do evangelho. Sua origem é Deus o Pai e sua essência é Jesus Cristo, seu Filho. Sua autenticidade é provada pelas Escrituras do Antigo Testamento e seu alvo é abranger todas as nações. Nosso propósito imediato ao proclamá-lo é levar as pessoas à obediência pela fé, mas o nosso propósito final é a glória suprema do nome de Jesus Cristo. Ou poderíamos sintetizar essas verdades dizendo que a boa nova é o evangelho de Deus, sobre Cristo, segundo as Escrituras, para as nações, para a obediência por fé, por causa do Nome – o nome de Cristo.”[7]


[1] MOO, Douglas J. Romanos: comentário exegético. São Paulo, SP: Vida Nova, 2023, pg. 57.

[2] PATE, C. Marvin. Romanos. São Paulo, SP: Vida Nova, 2015, pg.21.

[3] STOTT, John. A mensagem de Romanos. São Paulo: ABU, 2007, pg.53.

[4] PATE, C. Marvin. Romanos. São Paulo, SP: Vida Nova, 2015, pg.20.

[5] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, pg. 67.

[6] Idem, pg.59.

[7] STOTT, John. A mensagem de Romanos. São Paulo: ABU, 2007, pg.55.


quarta-feira, 12 de abril de 2023

O cumprimento da promessa - Romanos 1.2-4

 


Rio de Janeiro, 12 de abril de 2023.

Série de Mensagens – O mais puro evangelho

Tema da Mensagem – O cumprimento da promessa

Texto Base – Romanos 1.2-4

“...que ele, no passado, prometeu por meio de seus profetas nas Escrituras Sagradas.” (verso 2)

  • A promessa a qual o apóstolo Paulo refere-se é a que o Senhor fez a Abraão: “O Senhor disse a Abrão: - Sai da tua terra, da sua parentela e da casa de seu pai e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Farei de você uma grande nação, e o abençoarei, e engrandecerei o seu nome. Seja uma benção! Abençoarei aqueles que o abençoarem e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoar. Em você serão benditas todas as famílias da terra.” (Gênesis 12.1-3)
  • “Comentaristas concordam que, aqui, “profetas” se refere a todo o Antigo Testamento. Assim, Paulo diz que de modo profético, o Antigo Testamento dá testemunho do evangelho de Deus. Isso pode ser observado já em Gênesis 12.1-3, onde Deus promete abençoar os descendentes de Abraão (os judeus), bem como as nações do mundo (os gentios). De fato, essa é a interpretação que Paulo faz de Gênesis 12.1-3 (cf. Rm 4.9-12; Gl 3.6-9). Essa dupla promessa da bênção de Deus sobre judeus (a restauração de Israel) e gentios (a conversão das nações) é tratada como promessa escatológica em Isaías 40-66. A dupla promessa é explicada claramente em Romanos 1.3-4, com referência a Israel, e em 1.5-7, com referência aos gentios. Jesus Cristo é aquele que Deus designou para garantir o cumprimento das duas promessas.”[1]
  • Stott vai dizer que o evangelho não é um conjunto de coisas inventadas por eles. Muito pelo contrário, o evangelho é a revelação do próprio Deus a raça humana. O evangelho só é boa notícia se ele for realmente o evangelho de Deus, da revelação que o próprio Deus faz de si mesmo a humanidade caída em seus delitos e pecados;

“Este evangelho diz respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi...” (verso 3)

  • “Este evangelho diz respeito a seu Filho...” – O evangelho de Deus é o próprio Senhor Jesus Cristo, sem a obra realizada por Jesus não haveria boas novas da parte de Deus para a humanidade;
  • “...segundo a carne...” – Os comentaristas são praticamente unanimes em dizer que o apóstolo aqui começa a tratar sobre a encarnação de Jesus. Os estudiosos comentam que os versos 3 e 4 parecem fazer parte ou de um cântico ou de um credo da igreja primitiva;
  • A doutrina da encarnação de Jesus – “...segundo a carne”, ou seja, Ele precisava ser um representante da raça humana para que os pecados da raça humana fosse expiado, o apóstolo Paulo sabe que era preciso ser dessa forma. Talvez seja por este motivo que ele chame de Jesus de segundo “Adão”, já que o primeiro falhou o segundo não falhou segundo o ensino de Paulo. Aqui podemos salientar uma doutrina fundamental para fé cristã: o nascimento virginal de Jesus. O teólogo sistemático Wayne Grudem destaca pelo menos três áreas da importância dessa doutrina: 1) Mostra que em última análise a salvação deve vir do Senhor; 2) O nascimento virginal possibilitou a união plena da divindade e da plena humanidade em uma só pessoa; 3) O nascimento virginal também torna possível a verdadeira humanidade de Cristo sem a herança do pecado. Richard J. Sturz ressalta: “Embora haja certo consenso quanto ao fato de Jesus ser o único revelador de Deus, há um outro elemento único de sua revelação que não tem sido tão explorado. Jesus também é o único revelador do que é o homem. Como humanos, nenhum de nós sente que seja necessário haver um que nos revele o que somos. Engano. Sendo formados dentro de uma ideologia cultural, o entendimento que temos de nós mesmos está comprometido antes do nascimento. E mais, as circunstâncias em que vivemos tentam mudar nossa maneira de ver as coisas, conformando-a à outra maneira de compreender a natureza humana.”[2]
  • “... veio da descendência de Davi.” – O apóstolo Paulo está fazendo uma clara alusão ao Senhor Jesus ser o cumprimento da promessa de Deus a Israel acerca do messias. Jesus é o descendente de Davi que irá reinar para sempre sobre à casa de Israel.

“...e foi designado do Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (verso 4)

  • “...e foi designado do Filho de Deus com poder...” – Paulo não está ensinando que Jesus tornou-se o filho de Deus somente após sua ressurreição. Mas o que ele exprime em seu ensinamento é que agora Jesus mudou de estado. Antes ele estava em um estado de humilhação, totalmente submisso a sua missão e as limitações de seu corpo físico mortal. Agora, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus está em seu estado de exaltação. Ele agora governa junto com o Pai sem nenhuma limitação, mas com todo poder.
  • “...com poder...” – Comenta Douglas Moo: “O que Paulo está afirmando, então, é que o filho preexistente, que ingressou na experiência humana como Messias prometido, foi designado com na base na ressurreição (ou, talvez, no momento dela) para uma posição nova e mais poderosa em relação ao mundo. Em virtude de sua obediência à vontade do Pai (p. ex., Fp 2.6-11) e por causa da revelação escatológica do poder salvador de Deus no evangelho (1.1,16), o Filho obtém uma condição nova e exaltada como “Senhor” (v.4b). Filho de Deus desde a eternidade, ele se torna Filho de Deus “em poder”, “capaz [dynatai] de salvar completamente os que chegam a Deus por meio dele” (Hb 7.25);”[3]
  • “...segundo o espírito de santidade...” – Paulo está enfatizando a obra de obediência realizada pelo Senhor Jesus na dependência total ao Espírito Santo, vivendo uma vida de santidade. O que o possibilitou a viver uma vida reta, digna, santa diante de Deus e dos homens e o lhe permitiu ser um sacrifício perfeito, sem mácula, sem manchas, sem qualquer motivo que pudesse prejudicar seu feito redentor.

Conclusão:

  • John Stott diz: “A essência do evangelho é Jesus Cristo. Paulo faz referências, diretas e indiretas, ao nascimento (descendente de Davi), à morte (pressuposta pela ressurreição), à ressurreição dentre os mortos e ao reinado (no trono de Davi) de Jesus Cristo. Aqui está um afirmação equilibrada tanto da humilhação como da exaltação, tanto da fraqueza como do poder do Filho de Deus: sua descendência humana remonta a Davu e a sua condição divina de filho no poder, estabelecida na ressurreição e dádiva do Espírito. Esse é o Cristo, fraco e poderoso, encarnado e exaltado, que possui e governa nossa vida.”[4]
  • Martinho Lutero e sua teologia dialética - A construção do pensamento de Lutero sempre se dava de forma paradoxal entre dois pontos extremos. A dialética tinha o entendimento de que a verdade só poder ser alcançada quando contrastada com outra verdade. Martinho em toda a sua construção teologia se utilizou desta concepção para a construção de seu pensamento. A Bíblia está repleta destes paradoxos: “Deus e o mundo, liberdade e escravidão, Deus oculto e Deus revelado, etc”. Lutero jamais se desfazia de algum dos lados. Ele sempre se utilizava da tensão e nunca se desfazia da mesma para a construção de seus pensamentos. Por exemplo: Não poderíamos entender o evangelho se não fosse pela lei, que revela nossa incapacidade de viver corretamente e assim aponta-nos para Cristo. Nesse caso a polaridade lei-evangelho é entendida conjuntamente: tanto a lei quanto o evangelho são essências a salvação.

 



[1] PATE, C. Marvin. Romanos. São Paulo, SP: Vida Nova, 2015, pg.18.

[2] STURZ, Richard J. Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Vida Nova, 2012, pg. 265.

[3] MOO, Douglas J. Romanos: comentário exegético. São Paulo, SP: Vida Nova, 2023, pg. 50.

[4] STOTT, John. Lendo Romanos com John Stott: volume 1. Viçosa, MG: Ultimato, 2018, pg. 16.

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