Capítulo IX –
Agostinho e seu legado teológico.
“Quando pensava
em me consagrar por inteiro ao teu serviço, Deus meu, … era eu
quem queria fazê-lo, eu quem não queria fazê-lo. Era eu mesmo. E
porque não queria de todo, nem de todo não queria, lutava comigo
mesmo e me rasgava em pedaços.”
(Agostinho de
Hipona)
1.1. INTRODUÇÃO:
Agostinho nasceu em
354 no povoado de Tagaste, no norte da África. Seu pai era um
oficial romano do alto escalão. Sua mãe, porém, era uma serva
consagrada ao Senhor Senhor Jesus. Agostinho fala muito pouco sobre
seu pai em seus escritos. Porém, sobre sua mãe encontramos
citações. Parece-nos que ainda quando adulto mante uma grande
proximidade de sua mãe.
O que nos parece
notório é que seus pais sabiam que estavam diante de um menino de
uma mente privilegiada. E por este motivo investiram pesado na
educação de seu filho. Primeiro o enviaram para uma cidade próxima
chamada Madura, e depois, mais tarde o enviaram à Cartago.
Agostinho chegou a
Cartago aos dezessete anos. Ele esmerou-se em seus estudos. Mas
Cartago tinha muitos outros encantos para um jovem dezessete anos.
Cartago foi o centro político, social e econômico da África
durante muitos anos. Ali o futuro bispo conheceu uma mulher, com quem
passou a conviver e teve um filho, que deu-se o nome de Adeotado.
A disciplina em que
se dedicava em aprender era a retórica. Esta era ensinada aos
advogados e funcionários públicos e tinha a finalidade de levar as
pessoas ao convencimento. Sem se preocupar se o que se expunha era
verdade ou não. A verdade era uma preocupação da filosofia.
Uma dos autores em
que Agostinho tinha como sua fonte de consulta era Cícero. Em uma de
suas obras ele identificou que Cícero concatenava a retórica e a
filosofia. Agostinho convenceu-se de que não era necessário somente
a busca pela retórica, convencendo-se da necessidade da busca pela
verdade.
Em busca dessa
verdade Agostinho mergulho inicialmente no maniqueismo. González em
sua obra explica o que é o maniqueismo. Diz ele:
“O
maniqueismo era uma religião de origem persa, fundada por Mani na
primeira metade do século III. Na opinião de Mani a difícil
situação humana era causada pelos dois princípios que há em cada
um de nós. Um deles é espiritual e luminoso. O outro – a matéria
– é físico e tenebroso. Em todo o Universo há dois princípios
igualmente eternos: a luz e as trevas. De alguma maneira, que os
maniqueus explicavam através de uma série de mitos, estes dois
princípios se mesclaram e confundiram, e esta confusão se projetou
sobre a situação humana. A salvação, então consiste em separar
esses dois elementos e em preparar nosso espírito para a volta do
reino da luz, e sua fusão com a luz eterna. Como toda nova mistura
é necessariamente má, os novos crentes devem fazer tudo para
evitá-la – e por esta razão os maniqueus, apesar de não
condenarem o o sexo, condenavam a procriação. Mani dizia que essa
doutrina tinha sido revelada em diversas épocas e vários profetas,
entre os quais estavam Buda, Zoroastro, Jesus, e por último, ele
próprio.
O maniqueismo tinha
um grande público nos dias de Agostinho devido ao fato de seu
discurso ter uma capa de “racional”. O mesmo era explicado e
difundido tendo como seus pressupostos mitos e lendas explanado por
seus defensores. Os maniqueus ridicularizavam a doutrina cristã a
chamando de primitiva e indigna de confiança.
Agostinho encontro
no maniqueismo inicialmente uma resposta que aparentemente ele não
encontrava no cristianismo sobre o problema do mal. Para os maniqueus
o mal foi gerado junto com o bem no início. Só que o mesmo foi
gerado pelo seu oponente, as trevas. Agostinho também ridicularizava
as Escrituras achava a mesma, principalmente o Antigo Testamento, um
conjunto de livros bárbaros, que contavam episódios violentos,
grosseiros e engano.
Porém Agostinho
começou a questionar as doutrinas maniqueista e sempre ouvia a mesma
coisa; “suas dúvidas serão sanadas por Fausto. Pois elas são
profundas de mais para nós”. Com isso Agostinho ansiou por
encontro Fausto e retirar do mesmo todas as suas dúvidas.
Quando chegou o
grande dia do encontro com o mesmo. Foi uma decepção! Aquele a quem
eles chamavam de grande mestre. Não foi capaz de saciar a incrível
mente de Agostinho que o bombardeou com suas dúvidas. Decepcionado o
gênio largou o maniqueismo e se dedicou a lecionar retórica
primeiro Cártago. Depois decepcionado com seus alunos se mudou para
Roma, onde teve dificuldades financeiras, pois seus alunos tinha
dificuldade em pagar seu salário. Então foi para Milão, onde havia
uma vaga de professor de retórica.
Em Milão o
estimado professor de retórica se tornou neoplatônico. Foi nessa
disciplina que encontrou uma resposta plausiva para o problema da
origem do mal. O neoplatonismo o ajudou a entender melhor a questão
da alma, e a pensar menos de maneira materializada.
Como professor em
Milão de retórica. Ouvi dizer da magnifica oratória do famoso
bispo Ambrósio. Na mente de Agostinho a fama de Ambrósio ser um bom
pregador era derivado de sua retórica e não da boa explanação das
Escrituras. Então ele pessoalmente foi conferir, ouvindo o então
ilustre pregador. Foi ouvindo este pregador que ele conseguiu
visualizar a beleza das Escrituras sendo expostas pela interpretação
alegórica de Ambrósio.
Após isso
Agostinho começou a se sensibilizar ao evangelho. Em um dia sentando
embaixo de uma árvore ele começou a ouvir a seguinte mensagem:
“Toma e lê. Toma e lê. Toma e lê”. Era a voz de uma menino que
brincava no parque. Instantes antes, o teólogo africano, havia
jogado fora, em algum outro lugar do parque, um manuscrito que estava
lendo.
Após ouvir isso,
ele voltou no local onde havia jogado fora. Tomou-o novamente e leu:
“Não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções,
não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo,
e nada disponhais para a carne”. (Romanos 13.13-14). Neste momento
nascia para fé uma das mentes teológicas, mais brilhantes que
alguns anos após seria conhecido como: “Santo Agostinho”.
A VIDA
CONTEMPLATIVA:
Após ter se
convertido. Agostinho procurou o conhecido bispo Ambrósio para ser
batizado e encaminhado em seus primeiros passos na fé. O que
parece-nos é que Ambrósio, não percebeu em Agostinho todo seu
potencial. Agostinho renunciou o seu cargo de professor de retórica
e junto de seu filho, sua mãe e um grupo de amigos, regressaram para
o norte da África, e lá se dedicaram a vida contemplativa.
Algum tempo depois
sua mãe morreu, ficando ele, seu filho Adeotado e seus amigos.
Depois destes fatos Agostinho decidiu vender seus bens e doar o
dinheiro aos pobres e foram para Tagaste. Não chegou a ter uma vida
parecida com a dos monges do deserto. Mas levou uma vida muito
disciplinada de oração, meditação e devoção ao estudos. Foi
nesta época que ele escreveu as suas primeiras obras cristãs.
Nestas obras ficou nítida sua tendência noeplatônica.
MINISTRO DA
IGREJA
Agostinho em 391,
visitou a cidade de Hipona para visitar um amigo. Ao chegar na cidade
foi ouvir a exposição do bispo Valério. Neste dia o bispo falou
sobre a vocação pastoral. Como Deus vocaciona homens no meio do seu
povo para apascentar o seu rebanho. E neste dia falou da necessidade
de se levanta entre a sua comunidade cristã um pastor para o seu
lugar. Haja vista que ele estava já bem idoso e seu ministério
estava no fim. E pediu que a congregação indicasse algum nome para
a função.
O nome de Agostinho
foi unanimidade e logo então foi ordenado contra a sua vontade.
Quatro mais tarde ele foi feito bispo de Hipona junto com Valério,
que estava fazendo de tudo para segurar Agostinho. Pois o experiente
bispo já havia percebido no rapaz tão grande potencial. Valério
sabia que desse modo estava garantindo que Agostinho ficasse por toda
a sua vida em Hipona. Naquela época era proibido um bispo se
transferir de uma comunidade para outra, Agostinho não sabia disso,
mas também era proibido dois bispos na mesma igreja.
TEÓLOGO DA
IGREJA OCIDENTAL
Agostinho em suas
primeiras obras refutou a heresia Maniqueista. Como anteriormente ele
havia defendido o maniqueismo. Agora ele se sentia na obrigação de
combater tal heresia. Por este motivo ele escreveu tratados sobre os
seguintes temas: autoridade das Escrituras, a origem do mal e livre
arbítrio. No capítulo anterior nós estudamos sobre a controvérsia
donástica. Os irmãos sabem que a heresia se expandiu na África.
Como Agostinho era bispo em Hipona, na África. Agostinho insistiu
sobre a validação dos sacramentos não ser válida pelo
ministrante.
- James Sawyer vai descrever em seu livro um pequeno resumo teológico das contribuições de Agostinho para a igreja:
“Agostinho
foi o último dos escritores cristãos antigos e a fonte mais citada
da teologia produzida na Idade Média. Ele é reconhecido como um dos
quatro doutores da Igreja Antiga (com Ambrósio, Jerônimo e
Gregório, o Grande). Além disso, a Reforma foi construída
diretamente sobre sua teologia, fazendo de Agostinho uma força
também nos movimentos protestantes. Os teólogos católicos veem na
eclesiologia de Agostinho (visível versus invisível) e nos
sacramentos (regulares e válidos) sua grande contribuição .Os
protestantes apreciam sua ideias sobre a antropologia (a depravação
do homem) e a soteriologia (salvação somente pela graça). Durante
a Idade Média, a Igreja interpretou erradamente as perspectivas de
Agostinho acerca da antropologia e a soteriologia, e foi somente na
Reforma que seu ensino foi descoberto em primeira mão.
Agostinho
formulou sua doutrina do pecado original, e a consequente depravação
total, com base nos ensinos do apóstolo Paulo, filtrada pelas lentes
de suas lutas pessoais contra a tentação sexual e o pecado. Sua
doutrina sobre a depravação e a incapacidade humanas provocou uma
resposta inflamada da parte de Pelágio, destacado monge britânico
que ensinava em Roma (v. “Pelágio”, mais adiante,
“Pelagianismo”, no cap. 18). Entre os anos 411 e 431, vários
concílios trataram da controvérsia pelagiana. Foi nesse contexto
que Agostinho argumentou a favor da doutrina do pecado original –
dívida, culpa e corrupção herdadas de Adão. Além disso,
Agostinho defendia a predestinação, o ensino de que toda humanidade
estava afundada no pecado e que Deus elegera alguns para receber a
graça salvadora.
Agostinho
influenciou grandemente Martinho Lutero, João Calvino e outros
reformadores, especialmente com as doutrinas da depravação, da
predestinação e da perseverança. Suas duas obras mais conhecidas,
Confissões e Cidade de Deus, são consideradas até hoje grandes
clássicos do cristianismo.”1
1SAWYER,
M. James. Uma
introdução à Teologia: das questões preliminares, da vocação e
do labor teológico.
São Paulo: Vida. 2009. pg.527.

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