quarta-feira, 8 de outubro de 2025

4ª AULA – REALISMO CRISTÃO: OS IRMÃOS NIEBUHR

 


Rio de Janeiro, 08 de outubro de 2025.

INSTITUTO BÍBLICO EFATÁ

MÓDULO DE TEOLOGIA CONTEMPORÂNEA

4ª AULA – REALISMO CRISTÃO: OS IRMÃOS NIEBUHR

PROFESSOR – PR. ROBERTO DA SILVA MEIRELES RODRIGUES

INTRODUÇÃO:

“Embora a neo-ortodoxia tenha sido introduzida no cenário teológico contemporâneo sobretudo por Karl Barth, ela não era, conforme já vimos, obra de um homem só. Tampouco se restringia à Europa. Houve muitos seguidores nos EUA também, onde encontrou uma voz potente em Niebuhr, ou melhor, dois Niebuhrs: os irmãos Reinhold e H. Richard. Seu pai, imigrante alemão, era pastor da Igreja Evangélica e Reformada Alemã. Os irmãos foram criados no Meio-Oeste americano. H. Richard Niebuhr (1892-1962) passou parte significativa de sua carreira de teólogo e professor na Harvard Divinity School, e Reinhold Niebuhr (1892-1971) no Union Theological Seminary. Reinhold foi, sem dúvida alguma, o principal vulto da teologia americana na primeira metade do século XX”.[1]

O movimento teológico chamado Realismo Cristão é representado especialmente pelos irmãos Reinhold Niebuhr e H. Richard Niebuhr.         Eles são teólogos americanos, surgidos no contexto da neo-ortodoxia, em diálogo com problemas sociais, culturais e políticos do século XX.

NEO-ORTODOXIA AMERICANA:

            “... A teologia de Niebuhr foi apelidada de realismo cristão porque, em primeiro lugar, não tinha ilusão alguma acerca da condição do homem marcada pelo pecado; era realista em relação à inevitabilidade e à universalidade do pecado. Em segundo lugar, ela encontrou na perspectiva bíblica e crista o relato mais adequado do pecado – em sua natureza e origem – e da falência da humanidade. Foi um esforço “pragmático” porque movido pelo interesse por soluções práticas ou, no mínimo, respostas para situação de pecaminosidade do ser humano.  Mais do que a maior parte das propostas cristãs que procuraram ser mais ou menos ortodoxas, o realismo cristão queria ser levado a sério no debate dos problemas sociais, políticos e econômicos que ultrapassavam os limites de sua comunidade levando uma palavra cristã ao público em geral.

A exemplo da neo-ortodoxia europeia, a neo-ortodoxia americana liberal. Assim como Barth resistiu a Harnack, do mesmo modo os irmãos Niebuhr resistiram a Walter Rauschenbusch (1861-1918). Rauschenbusch, também filho de imigrante alemão, era batista e o mais influente representante da teologia liberal nos EUA. Ele iniciou seu ministério na triste célebre favela de "Hell's Kitchen", em Nova York. Ali Rauschenbusch ficou profundamente perturbado com a difícil situação dos pobres e fez então a seguinte pergunta: o que o evangelho tem a dizer a esse respeito? Mais tarde, foi professor de história da igreja no Seminário de Rochester e um expoente importante, do lado de cá do Atlântico, do movimento do "evangelho social". Seu livro mais influente, Christianity and social crisis (Cristianismo e crise social), é de 1907” [2]

O realismo cristão surge como uma reação tanto ao otimismo liberal quanto ao secularismo, afirmando uma visão mais “serena” ou verídica da condição humana: reconhece o pecado como um problema real e estruturante.

“... A acusação lançada pelos irmãos Niebuhr contra o liberalismo, qualificando-o de distorção insípida do cristianismo autêntico, encontra sua expressão por excelência na célebre afirmação que H. Richard fez sobre a teologia liberal: “Um Deus sem ira, que conduziu homens sem pecado para um reino sem julgamento, pela ministração de um Cristo sem cruz”. [3]

PECADO, A DOUTRINA EMPÍRICA:

            “O problema, naturalmente, é o pecado, tema central da obra mais importante de Niebuhr, em dois volumes, The nature and destiny of man [A natureza e o destino do homem], publicada em 1941. Nesse livro, ele rejeita a concepção racionalista da natureza humana, que eleva a razão à categoria definidora da humanidade, rejeitando a concepção romântica ou naturalista e assim rebaixando a humanidade ao mesmo plano da física, da química, da psicologia, etc. A primeira concepção deifica a natureza humana, e a segunda à degrada. Para Niebuhr, realista e pragmático, o ser humano é uma síntese entre natureza e espírito, entre finito e infinito (para usar uma linguagem que lembra Kierkegaard) e é no limiar de um e de outro que vamos encontrá-lo. Com um pé em dois mundos, o homem e a experiência humana resistem a qualquer explicação coerente. E aí que reside a importância da antropologia cristã - a visão cristã da natureza humana. Ela é mais realista no que diz respeito à natureza humana, porque respeita o que há de positivo e de negativo nela. "A perspectiva cristã da natureza humana traz consigo um paradoxo, porque reivindica uma estatura mais elevada para o homem, porém leva mais a sério o mal que há nele do que outras antropologias". Para Niebuhr, essa avaliação dialética da situação do homem, e a resposta que dá a ela, supera a dicotomia idealista-racionalista/romântico-naturalista e nos remete à visão bíblica da natureza humana e das realidades da vida”.[4]

Para Reinhold Niebuhr, especialmente, o pecado não é apenas uma noção abstrata ou individual, mas algo que se manifesta socialmente, em instituições, sistemas, conflitos de poder. Ele critica ideias de que a razão ou o progresso humano resolveriam por si só os males sociais.

AMOR E JUSTIÇA:

“Amor e justiça são palavras fundamentais para que se entenda a aplicação niebuhriana dos princípios do cristianismo à nossa existência prática, social e política. Por "amor", Niebuhr quer dizer ágape, o abnegado. Esse amor é não cauteloso, isto é, ele é movido pela obediência absoluta e pela preocupação com o próximo amor o ensinamento de Cristo -conforme e não por alguma recompensa ou consequência feliz que possa proporcionar a alguém; o que o move é o sacrifício, a abnegação e a perda pessoal. Nesse sentido, ele é para o pecador uma "possibilidade impossível", ou seja, um ideal pelo qual devemos nos empenhar, apesar de totalmente inatingível.

A justiça, por outro lado, é o amor que abre caminho no mundo, é a tentativa de encarnar o amor nas situações e estruturas concretas da vida social. Mais especificamente, isso significaria uma distribuição mais equitativa do poder público e mais o que tudo isso implica do ponto de vista social, político e econômico. Niebuhr participou ativamente de programas de reforma social, como o "Democratas pela Ação Social", do qual foi um dos fundadores. (Ele era, portanto, liberal na política e conservador na teologia, uma posição que, conforme gostava sempre de dizer, não era incoerente) ”

Amor no sentido cristão de ágape como mandamento central; não como sentimentalismo, mas como uma ética que exige compromisso concreto. Justiça vinculada ao amor: a noção de que amar exige que se cuide de estruturas, que se lute para que haja equidade social, responsabilidade, solidariedade.[5]

TELOS VS. FINIS:

Finis (fim em sentido de término, destruição, colapso) e telos (fim em sentido de propósito, finalidade, avanço, esperança) são ideias contrastantes que aparecem nessa abordagem. Niebuhr alerta para o risco de que a história (e a vida humana) sejam vistas apenas como o finis, isto é, ruptura, fracasso, descontinuidade, ignorando o telos, o “propósito”, a esperança cristã que orienta a ação social.

A ORAÇÃO DE NEIBUHR:

            “Deus, dá-nos a graça de aceitar com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, coragem para mudar as que devem ser mudadas, e sabedoria para distinguir uma da outra”[6]

O capítulo também dedica uma perícope acerca de uma análise da percepção de Niebuhr sobre a prática da oração a partir de uma de suas orações. Isso é, como experiência de relacionamento com Deus, como reconhecimento da dependência humana, como modo de enfrentar a realidade do pecado, da limitação e da responsabilidade.

            A oração evidencia o paradoxo entre o humano e o divino, o finito e o infinito, mostrando não só a ação de Deus na história, mas também a necessidade de humildade na ação humana.

BREVE RESENHA CRÍTICA:

            O realismo cristão oferece um contrapeso saudável ao otimismo ingênuo do liberalismo: reconhece as distorções humanas, as imperfeições da cultura, o poder e o egoísmo como realidades com as quais devemos lidar.

            Porém, também enfrenta críticas: se enfatiza demais o pecado e a limitação humana, pode gerar um pessimismo que paralisa ou que subestima o chamado para transformação, esperança, ação ética concreta.

            A tensão entre admitir o mal real e lutar por justiça permanece central: o realismo cristão não é resignado, mas realista — ele antecipa conflitos, ambiguidade, pluralismo de valores, imperfeição institucional, mas não abdica do ideal cristão.



[1] MILLER, Ed. L. e GRENZ, Stanley J. Teologias Contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2011, pg. 37.

[2] MILLER, Ed. L. e GRENZ, Stanley J. Teologias Contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2011, pg. 38.

[3] Ibid.pp.39.

[4] Ibid.pp.41.

[5] MILLER, Ed. L. e GRENZ, Stanley J. Teologias Contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2011, pg. 42.

[6] Ibid. pp.47.

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