Projeto – “De bem com a Bíblia” – abril de 2024
Professor
– Roberto da Silva Meireles Rodrigues
Livro
– Gálatas.
7º AULA – Propósito da vida de Paulo!
“Quando Deus, porém, que
desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela sua graça, se agradou
em revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, não
consultei ninguém. Também não subi a Jerusalém para encontrar os que já eram
apóstolos antes de mim, mas parti para Arábia e voltei outra vez para Damasco. (Gálatas
1:15-17)”
“Quando Deus, porém, que
desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela sua graça, se agradou
em revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, não
consultei ninguém.” (verso 15 e 16)
Alguns
estudiosos tratam esses versos como se Paulo estivesse falando de sua conversão
– e ao ler conversão entenda essa expressão com a definição que a mesma possui
em nossos dias – só que nos dias de Paulo não havia esse entendimento.
Inclusive, nós já comentamos essa questão em um episódio anteriormente.
O
estudioso do Novo Testamento N.T.Wright comenta: “Esse é outro ponto no qual
temos de ter um cuidado especial. A maioria de nós foi criada com a noção de
que Paulo foi “convertido” no caminho para Damasco – e o que entendemos por
“conversão” é, na verdade, muito diferente do que Paulo está apresentando aqui.
A maioria das pessoas em nosso mundo, quando se “converte”, sai do ateísmo ou
do agnosticismo, ou talvez de alguma filiação formal em algum outro grupo
religioso, para fazer parte de uma fé cristã significativa. Entretanto, Paulo
não mudou daquilo que chamamos uma “religião” para outra. Conforme ele afirma
em Atos, ele sempre fora fiel ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ele sempre
prezou a lei e as promessas, os salmos e os profetas, e continuou a fazer isso.
Tinha sido fatalmente natural para cristãos irrefletidos (quem sabe, ajudados
por nossa rápida leitura equivocada da palavra Ioudaismo nos versículos 13 e
14) sugerir que Paulo abandonou o “judaísmo” e adotou o “cristianismo”. De
forma trágica, muitos judeus adotaram a mesma visão, em especial aqueles com a
pretensão de resgatar Jesus como um bom judeu do século 1 (sem intenções de
fundar uma igreja, muito menos qualquer aspiração de pensar nele como “divino”)
e, por essa razão, procuraram alguém para culpar por esse novo movimento
chamado “cristianismo”. Mas a questão
´que Saulo de Tarso, da mesma maneira que vários judeus devotos (voltando à
referência de Salmos de Salomão 17), estava ansiando e orando para que o
Messias de Deus viesse para vencer os pagãos ímpios e resgatar seu povo. Quando
Saulo veio, de repente, a crer que Jesus de Nazaré era o Messias de Israel e,
portanto, o Senhor verdadeiro do mundo, isso consistia em uma crença
completamente judaica. Ela só fazia sentido dentro de uma visão de mundo
alimentada pela Bíblia. Como ele insiste por toda essa carta, tratava-se do
cumprimento das promessas bíblicas, e não do seu abandono. Temos toda a razão
para supor que Paulo desejava muito que o Messias de Israel viesse. Ele só não
esperava que ele viesse como... o Jesus crucificado.” [1]
Fica muito claro para nós a mudança
abrupta o destaque feito por Paulo acerca do antes e depois de seu encontro com
Jesus. Nos versos anteriores ele fala sobre seu ímpeto em perseguir a igreja de
Jesus e sua tentativa de oprimi-la. Porém, ao encontrar-se com Jesus ele para
de falar de si mesmo e começa a focar em Deus. É Deus que se revela a ele; que
o chama desde o ventre de sua mãe; que o separou para revelar seu Filho.
Dr. John Stott destaca exatamente
essa questão em seu comentário e acrescenta uma observação extremamente
pertinente, diz Stott: “Em outras palavras, “no meu fanatismo eu me
inclinava a perseguir e destruir, mas Deus (que havia deixado fora de minhas
cogitações) me prendeu e alterou meu impetuoso curso. Todo o meu violento
fanatismo nada era diante da boa vontade de Deus.” [2]
O saudoso teólogo britânico destaca
três aspectos da fala do apóstolo Paulo no versículo que está sendo analisado
por nós: 1) Deus me separou antes de eu nascer; 2) Deus me chamou pela graça;
3) Aprouve (agradou) a Deus revelar seu Filho em mim. Vamos analisar esses
pontos:
Deus
me separou antes de eu nascer – William Hendirksen
comenta que a palavra “separou” têm a designação de “selecionou” (me),
“consagrou” (me), “separou” (me) de todo restante da humanidade para um
propósito específico. Claramente o apóstolo Paulo faz uma alusão ao texto de
Jeremias: “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que nascesses te
consagrei e de te designei como profeta as nações.” (Jeremias 1.5)
Deus
me chamou pela graça - Como seu chamado foi bem antes de seu
nascimento isso demonstrava claramente a graça de Deus sobre a vocação de
Paulo, ou seja, ele não havia feito nada ainda para que achasse que sua vocação
era fruto de algo meritório. Hendriksen foi muito feliz ao expressar essa
verdade ao dizer: “Quão maravilhosamente ele operou essa graça no chamado de
Paulo. Ela transformou um homem que respirava ameaças e morte contra a Igreja
de Cristo em alguém que passou a respirar doxologias sempre que meditava nesse
maravilhoso amor redentor que Deus mostrara, sim, a ele, um homem tão indigno!
Aliás, a carreira de Paulo como perseguidor implacável, e tudo o que constava
entre seu nascimento e seu ingresso na obra missionária eficaz de Cristo, fez
com que a graça se lhe afigurasse com muito mais esplendor!”[3]
Aprouve
(agradou) a Deus revelar seu Filho em mim para que eu
pregasse aos gentios – “A melhor interpretação é que Paulo está
combinando duas experiências em uma. Por um lado, é evidente que Deus revelou
Jesus a Paulo na estrada de Damasco. Ali ele enfim compreendeu quem era Jesus.
Teve um encontro pessoal com Cristo vivo. Mas, por outro lado (como demonstra o
resto do v.16), Paulo imediatamente constatou que estava sendo chamado para
mostrar a outros quem era Jesus. Assim, podemos dizer que Deus revelou Cristo
para Paulo de modo que pudesse revelar Cristo por meio de Paulo. Isso nos
mostra uma diferença crítica entre uma simples pessoa religiosa ou de boa moral
e um cristão. O cristão tem mais do que uma crença intelectual em Cristo; ambos
estabelecem um relacionamento pessoal. E ele sabe que esse relacionamento não
lhe é dado com o intuito exclusivo do seu próprio conforto e alegria pessoal.
Sabe que tem a responsabilidade de revelar a Cristo a outros por meio de quem
é, do que faz e do que diz.”[4]
O comentário de
Lutero sobre “para que revelasse seu Filho em mim” é muito interessante, pois
evoca a afirmação paulina aos Romanos ao dizer “a fé vem pelo ouvir, e ouvir a
Palavra de Deus” (Romanos 10.17). Diz Lutero: “Essa espécie de doutrina que
revela o Filho de Deus não é aprendida, não é ensinada, não é anunciada por
nenhuma sabedoria de homens nem pela própria lei, mas é revelada por Deus,
primeiro, pela palavra externa, em seguida, interiormente, pelo Espírito. O
Evangelho é, portanto, uma palavra divina que desceu do céu e foi revelada pelo
Espírito Santo que, para esse propósito, foi enviado, contudo, de tal maneira
que a Palavra de Deus o preceda. Pois nem o próprio Paulo teve uma revelação
interna antes de ouvir, primeiro, a palavra externa do céu, a saber: “Saulo,
Saulo, por que me persegues?” (At 9.4). Ora, primeiro, ouviu a palavra externa.
Somente depois seguiram as revelações, o conhecimento da Palavra, a fé e os dons
do Espírito.”
“... para que eu o
pregasse entre os gentios, não consultei ninguém.” – O apóstolo possui um claro entendimento de que sua
conversão está intimamente ligada à sua vocação. Deus o chamou não apenas o
salvou, mas também o vocacionou para que através da instrumentalidade de sua
vida outras vidas também pudessem experimentar da salvação que há em Cristo
Jesus. O adento feito pelo apóstolo Paulo acerca da expressão “não consultei
ninguém” é mais um reforço do apóstolo sobre o fato dele não ter no evangelho
por ele anunciado e nem em sua vocação a influência de pessoa alguma, ou seja,
foi uma revelação direta do próprio Senhor Jesus. Somos cientes de que por
exemplo o apóstolo teve contato com Ananias durante sua conversão, porém este
não teve nenhuma participação tanto na revelação que Paulo teve que proporcionou
sua conversão e também nenhuma participação no chamado que Deus o fez para
pregar o evangelho aos gentios. O apóstolo deseja deixa isso bem claro, pois
sua autoridade estava sendo questionada pelos mestres judaizantes que estavam sem
infiltrando no meio dos irmãos das igrejas da região da galácia.
“Também não subi a
Jerusalém para encontrar os que já eram apóstolos antes de mim, mas parti para
Arábia e voltei outra vez para Damasco.” (verso 17)
“Também não subi a Jerusalém para
encontrar os que já eram apóstolos antes de mim...” – No inicio do capítulo o apóstolo já havia
requerido o reconhecimento de seu apostolado, aliás, esse é um dos pontos
centrais e nevrálgicos da carta de Paulo aos Gálatas, a defesa da autoridade apostólica
de Paulo, pois os falsos mestres estavam desmerecendo o ensino de Paulo e para
isso questionando a autoridade de seu apostolado em detrimento aos demais
apóstolos. Por ter convicção plena de que havia recebido seu evangelho e sua
vocação do próprio Jesus, o apóstolo deixa claro que estava no mesmo pé de
igualdade dos demais apóstolos, aliás, Paulo não os desmerece e reconhece a
autoridade apostólica deles enfatizando o fato de que a única diferença entre
eles residia no fator tempo – eles haviam sido recrutados pelo Senhor antes de
Paulo – essa era a única diferença, todavia assim como os apóstolos receberam
seu evangelho e sua vocação diretamente do Senhor, Paulo também o havia
recebido. De forma alguma a fala de Paulo tenciona a desejar desmerecer os
demais apóstolos, apenas tem o intuito de enfatizar que eles faziam parte do
mesmo seleto grupo de pessoas separadas por Jesus com missões exclusivas.
“... mas parti para
Arábia e voltei outra vez para Damasco.” - O estudioso do Novo Testamento Donald Guthrie
levanta alguns questionamentos interessantes: 1) O que ele quis dizer com
Arábia? 2) Qual o propósito da visita de Paulo? 3) Qual a duração dessa visita?
4) Quanto essa declaração contradiz Atos?
A
maioria dos estudiosos acredita que a região citada por Paulo como a Arábia é a
região bem próxima a Damasco o que facilitava até mesmo sua locomoção. Em relação
ao propósito algumas teorias são levantadas, como por exemplo que ele tenha ido
evangelizar os povos daquela região; outra era que ele desejava fazer alguma
espécie de análogo a Moisés ou a outras figuras como Elias, Isaias e Jeremias
com suas representações de terem recebido de Deus missões específicas para
cumprirem após uma experiência por essas regiões. Todavia, confesso que não me
dei por satisfeito nestas possibilidades, a região era ocupada por nômades e de
forma muito espaçada o que não teria muito lógica dentro das estratégias
evangelizadoras que conhecemos de Paulo, como por exemplo o seu empenho em
levar o evangelho as grandes metrópoles. Em relação a questão da analogia com o
Antigo Testamento acredito que o apóstolo não estava muito focado em realizar
comparações entre ele e outros personagens bíblicos dentro desse contexto de
sua fala. Penso, que a teoria mais viável possa ser a ideia de um tempo para
oração e meditação. Paulo havia sido surpreendido e tudo o que estava
acontecendo ainda estava sendo assimilado. Ele precisava de um tempo para
colocar seu mundo interior em ordem e a partir daí iniciar sua trajetória para
o cumprimento de sua missão. Em relação a duração é bem incerto fazermos alguma
conjectura sobre, pois não a menção no texto. Sobre a questão em contradizer o
texto de Atos é bem razoável pensar que Lucas não tinha em mente escrever uma
biografia de Paulo e por este motivo não se apegou a questão das minucias ou
também existindo a possibilidade de ele não saber acerca de muitos detalhes.
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2023.
[1] WRIGHT, N.T. Gálatas: comentário para a
formação cristã. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2023, pg. 95.
[2] STOTT, John R.W. A mensagem de Gálatas:
somente um caminho. São Paulo: ABU Editora, 2007, pg.33.
[3] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo
Testamento – Gálatas. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2019, pg. 69.
[4] KELLER,
Timothy. Gálatas para você. São Paulo: Vida Nova, 2015, pg. 32.

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