quinta-feira, 11 de abril de 2024

7º AULA – Propósito da vida de Paulo!

 


Projeto – “De bem com a Bíblia” – abril de 2024

Professor – Roberto da Silva Meireles Rodrigues

Livro – Gálatas.

7º AULA – Propósito da vida de Paulo!

“Quando Deus, porém, que desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela sua graça, se agradou em revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, não consultei ninguém. Também não subi a Jerusalém para encontrar os que já eram apóstolos antes de mim, mas parti para Arábia e voltei outra vez para Damasco. (Gálatas 1:15-17)”

“Quando Deus, porém, que desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela sua graça, se agradou em revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, não consultei ninguém.” (verso 15 e 16)

            Alguns estudiosos tratam esses versos como se Paulo estivesse falando de sua conversão – e ao ler conversão entenda essa expressão com a definição que a mesma possui em nossos dias – só que nos dias de Paulo não havia esse entendimento. Inclusive, nós já comentamos essa questão em um episódio anteriormente.

            O estudioso do Novo Testamento N.T.Wright comenta: “Esse é outro ponto no qual temos de ter um cuidado especial. A maioria de nós foi criada com a noção de que Paulo foi “convertido” no caminho para Damasco – e o que entendemos por “conversão” é, na verdade, muito diferente do que Paulo está apresentando aqui. A maioria das pessoas em nosso mundo, quando se “converte”, sai do ateísmo ou do agnosticismo, ou talvez de alguma filiação formal em algum outro grupo religioso, para fazer parte de uma fé cristã significativa. Entretanto, Paulo não mudou daquilo que chamamos uma “religião” para outra. Conforme ele afirma em Atos, ele sempre fora fiel ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ele sempre prezou a lei e as promessas, os salmos e os profetas, e continuou a fazer isso. Tinha sido fatalmente natural para cristãos irrefletidos (quem sabe, ajudados por nossa rápida leitura equivocada da palavra Ioudaismo nos versículos 13 e 14) sugerir que Paulo abandonou o “judaísmo” e adotou o “cristianismo”. De forma trágica, muitos judeus adotaram a mesma visão, em especial aqueles com a pretensão de resgatar Jesus como um bom judeu do século 1 (sem intenções de fundar uma igreja, muito menos qualquer aspiração de pensar nele como “divino”) e, por essa razão, procuraram alguém para culpar por esse novo movimento chamado “cristianismo”.  Mas a questão ´que Saulo de Tarso, da mesma maneira que vários judeus devotos (voltando à referência de Salmos de Salomão 17), estava ansiando e orando para que o Messias de Deus viesse para vencer os pagãos ímpios e resgatar seu povo. Quando Saulo veio, de repente, a crer que Jesus de Nazaré era o Messias de Israel e, portanto, o Senhor verdadeiro do mundo, isso consistia em uma crença completamente judaica. Ela só fazia sentido dentro de uma visão de mundo alimentada pela Bíblia. Como ele insiste por toda essa carta, tratava-se do cumprimento das promessas bíblicas, e não do seu abandono. Temos toda a razão para supor que Paulo desejava muito que o Messias de Israel viesse. Ele só não esperava que ele viesse como... o Jesus crucificado.”          [1]

            Fica muito claro para nós a mudança abrupta o destaque feito por Paulo acerca do antes e depois de seu encontro com Jesus. Nos versos anteriores ele fala sobre seu ímpeto em perseguir a igreja de Jesus e sua tentativa de oprimi-la. Porém, ao encontrar-se com Jesus ele para de falar de si mesmo e começa a focar em Deus. É Deus que se revela a ele; que o chama desde o ventre de sua mãe; que o separou para revelar seu Filho.

            Dr. John Stott destaca exatamente essa questão em seu comentário e acrescenta uma observação extremamente pertinente, diz Stott: “Em outras palavras, “no meu fanatismo eu me inclinava a perseguir e destruir, mas Deus (que havia deixado fora de minhas cogitações) me prendeu e alterou meu impetuoso curso. Todo o meu violento fanatismo nada era diante da boa vontade de Deus.” [2]

            O saudoso teólogo britânico destaca três aspectos da fala do apóstolo Paulo no versículo que está sendo analisado por nós: 1) Deus me separou antes de eu nascer; 2) Deus me chamou pela graça; 3) Aprouve (agradou) a Deus revelar seu Filho em mim. Vamos analisar esses pontos:

Deus me separou antes de eu nascer – William Hendirksen comenta que a palavra “separou” têm a designação de “selecionou” (me), “consagrou” (me), “separou” (me) de todo restante da humanidade para um propósito específico. Claramente o apóstolo Paulo faz uma alusão ao texto de Jeremias: “Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que nascesses te consagrei e de te designei como profeta as nações.” (Jeremias 1.5)

Deus me chamou pela graça - Como seu chamado foi bem antes de seu nascimento isso demonstrava claramente a graça de Deus sobre a vocação de Paulo, ou seja, ele não havia feito nada ainda para que achasse que sua vocação era fruto de algo meritório. Hendriksen foi muito feliz ao expressar essa verdade ao dizer: “Quão maravilhosamente ele operou essa graça no chamado de Paulo. Ela transformou um homem que respirava ameaças e morte contra a Igreja de Cristo em alguém que passou a respirar doxologias sempre que meditava nesse maravilhoso amor redentor que Deus mostrara, sim, a ele, um homem tão indigno! Aliás, a carreira de Paulo como perseguidor implacável, e tudo o que constava entre seu nascimento e seu ingresso na obra missionária eficaz de Cristo, fez com que a graça se lhe afigurasse com muito mais esplendor!”[3]

Aprouve (agradou) a Deus revelar seu Filho em mim para que eu pregasse aos gentios“A melhor interpretação é que Paulo está combinando duas experiências em uma. Por um lado, é evidente que Deus revelou Jesus a Paulo na estrada de Damasco. Ali ele enfim compreendeu quem era Jesus. Teve um encontro pessoal com Cristo vivo. Mas, por outro lado (como demonstra o resto do v.16), Paulo imediatamente constatou que estava sendo chamado para mostrar a outros quem era Jesus. Assim, podemos dizer que Deus revelou Cristo para Paulo de modo que pudesse revelar Cristo por meio de Paulo. Isso nos mostra uma diferença crítica entre uma simples pessoa religiosa ou de boa moral e um cristão. O cristão tem mais do que uma crença intelectual em Cristo; ambos estabelecem um relacionamento pessoal. E ele sabe que esse relacionamento não lhe é dado com o intuito exclusivo do seu próprio conforto e alegria pessoal. Sabe que tem a responsabilidade de revelar a Cristo a outros por meio de quem é, do que faz e do que diz.”[4]

            O comentário de Lutero sobre “para que revelasse seu Filho em mim” é muito interessante, pois evoca a afirmação paulina aos Romanos ao dizer “a fé vem pelo ouvir, e ouvir a Palavra de Deus” (Romanos 10.17). Diz Lutero: “Essa espécie de doutrina que revela o Filho de Deus não é aprendida, não é ensinada, não é anunciada por nenhuma sabedoria de homens nem pela própria lei, mas é revelada por Deus, primeiro, pela palavra externa, em seguida, interiormente, pelo Espírito. O Evangelho é, portanto, uma palavra divina que desceu do céu e foi revelada pelo Espírito Santo que, para esse propósito, foi enviado, contudo, de tal maneira que a Palavra de Deus o preceda. Pois nem o próprio Paulo teve uma revelação interna antes de ouvir, primeiro, a palavra externa do céu, a saber: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9.4). Ora, primeiro, ouviu a palavra externa. Somente depois seguiram as revelações, o conhecimento da Palavra, a fé e os dons do Espírito.”

“... para que eu o pregasse entre os gentios, não consultei ninguém.” – O apóstolo possui um claro entendimento de que sua conversão está intimamente ligada à sua vocação. Deus o chamou não apenas o salvou, mas também o vocacionou para que através da instrumentalidade de sua vida outras vidas também pudessem experimentar da salvação que há em Cristo Jesus. O adento feito pelo apóstolo Paulo acerca da expressão “não consultei ninguém” é mais um reforço do apóstolo sobre o fato dele não ter no evangelho por ele anunciado e nem em sua vocação a influência de pessoa alguma, ou seja, foi uma revelação direta do próprio Senhor Jesus. Somos cientes de que por exemplo o apóstolo teve contato com Ananias durante sua conversão, porém este não teve nenhuma participação tanto na revelação que Paulo teve que proporcionou sua conversão e também nenhuma participação no chamado que Deus o fez para pregar o evangelho aos gentios. O apóstolo deseja deixa isso bem claro, pois sua autoridade estava sendo questionada pelos mestres judaizantes que estavam sem infiltrando no meio dos irmãos das igrejas da região da galácia.

“Também não subi a Jerusalém para encontrar os que já eram apóstolos antes de mim, mas parti para Arábia e voltei outra vez para Damasco.” (verso 17)

“Também não subi a Jerusalém para encontrar os que já eram apóstolos antes de mim...” – No inicio do capítulo o apóstolo já havia requerido o reconhecimento de seu apostolado, aliás, esse é um dos pontos centrais e nevrálgicos da carta de Paulo aos Gálatas, a defesa da autoridade apostólica de Paulo, pois os falsos mestres estavam desmerecendo o ensino de Paulo e para isso questionando a autoridade de seu apostolado em detrimento aos demais apóstolos. Por ter convicção plena de que havia recebido seu evangelho e sua vocação do próprio Jesus, o apóstolo deixa claro que estava no mesmo pé de igualdade dos demais apóstolos, aliás, Paulo não os desmerece e reconhece a autoridade apostólica deles enfatizando o fato de que a única diferença entre eles residia no fator tempo – eles haviam sido recrutados pelo Senhor antes de Paulo – essa era a única diferença, todavia assim como os apóstolos receberam seu evangelho e sua vocação diretamente do Senhor, Paulo também o havia recebido. De forma alguma a fala de Paulo tenciona a desejar desmerecer os demais apóstolos, apenas tem o intuito de enfatizar que eles faziam parte do mesmo seleto grupo de pessoas separadas por Jesus com missões exclusivas.

“... mas parti para Arábia e voltei outra vez para Damasco.” - O estudioso do Novo Testamento Donald Guthrie levanta alguns questionamentos interessantes: 1) O que ele quis dizer com Arábia? 2) Qual o propósito da visita de Paulo? 3) Qual a duração dessa visita? 4) Quanto essa declaração contradiz Atos?

            A maioria dos estudiosos acredita que a região citada por Paulo como a Arábia é a região bem próxima a Damasco o que facilitava até mesmo sua locomoção. Em relação ao propósito algumas teorias são levantadas, como por exemplo que ele tenha ido evangelizar os povos daquela região; outra era que ele desejava fazer alguma espécie de análogo a Moisés ou a outras figuras como Elias, Isaias e Jeremias com suas representações de terem recebido de Deus missões específicas para cumprirem após uma experiência por essas regiões. Todavia, confesso que não me dei por satisfeito nestas possibilidades, a região era ocupada por nômades e de forma muito espaçada o que não teria muito lógica dentro das estratégias evangelizadoras que conhecemos de Paulo, como por exemplo o seu empenho em levar o evangelho as grandes metrópoles. Em relação a questão da analogia com o Antigo Testamento acredito que o apóstolo não estava muito focado em realizar comparações entre ele e outros personagens bíblicos dentro desse contexto de sua fala. Penso, que a teoria mais viável possa ser a ideia de um tempo para oração e meditação. Paulo havia sido surpreendido e tudo o que estava acontecendo ainda estava sendo assimilado. Ele precisava de um tempo para colocar seu mundo interior em ordem e a partir daí iniciar sua trajetória para o cumprimento de sua missão. Em relação a duração é bem incerto fazermos alguma conjectura sobre, pois não a menção no texto. Sobre a questão em contradizer o texto de Atos é bem razoável pensar que Lucas não tinha em mente escrever uma biografia de Paulo e por este motivo não se apegou a questão das minucias ou também existindo a possibilidade de ele não saber acerca de muitos detalhes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona. A Graça (II) / Santo Agostinho. São Paulo: Paulus, 1999.

CALVINO, João. Gálatas. São José dos Campos, SP: Editora Fiel. 2007

CARSON, D. A. / MOO, Douglas J. / MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo, SP: Vida Nova, 1997.

GUTHRIE, Donald. Introdução e comentário de Gálatas. São Paulo, SP: Vida Nova, 1984.

HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento; São Paulo, SP: Hagnos, 2001.

HALLEY, Henry Hamptom. Manual Bíblico de Haley. São Paulo: Editora Vida, 2001.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Gálatas. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2019.

KELLER, Timothy. Gálatas o valor inestimável do evangelho. São Paulo: Vida Nova, 2015.

KELLER, Timothy. Gálatas para você. São Paulo: Vida Nova, 2015.

LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2003.

LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A carta da liberdade cristã. São Paulo, SP: Hagnos, 2011.

LUTERO, Martinho. Martinho Lutero: obras selecionadas, v.10 – Interpretação do Novo Testamento – Gálatas – Tito. São Leopoldo: Sinodal, Canoas: ULBRA, Porto Alegre: Concórdia, 2008.

MacARTHUR, John. Comentário Bíblico MacArthur: desvendando a verdade de Deus, versículo a versículo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019.

MacGRATH, Alister. Teologia para amadores. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

NICODEMUS, Augustus. Livrem em Cristo – A mensagem de Gálatas para a igreja de hoje. São Paulo, SP: Vida Nova, 2016.

POHL, Adolf. Carta aos Gálatas: Comentário Esperança. Curitiba, PR: Editora Evangélica Esperança, 1999.

STOTT, John R.W. A mensagem de Gálatas: somente um caminho. São Paulo: ABU Editora, 2007.

WRIGHT, N.T. Gálatas: comentário para a formação cristã. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2023.

 

 



[1] WRIGHT, N.T. Gálatas: comentário para a formação cristã. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2023, pg. 95.

[2] STOTT, John R.W. A mensagem de Gálatas: somente um caminho. São Paulo: ABU Editora, 2007, pg.33.

 

[3] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Gálatas. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2019, pg. 69.

[4] KELLER, Timothy. Gálatas para você. São Paulo: Vida Nova, 2015, pg. 32.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A benção do temor ao Senhor - Salmo 128

Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2026. Reflexões Dominicais Série de Mensagens - Salmo nosso de cada dia. Texto – Salmos 128 Tem...